Não sei vocês, comigo um texto nunca está pronto. Pequeno, grande, uma frase ou quarenta, um ou vários parágrafos, se eu tiver uma oportunidade, vou conversar com ele até não poder mais. Não me aborreço fácil, troco palavras de lugar, mudo o tempo verbal, ajeito uma concordância, substituo palavras, busco outras, tiro e coloco vírgulas, ponto, dois pontos, reticências, travessão, exclamação, interrogação, etc. Não tenho pressa nem preguiça. Trabalho até a exaustão se preciso for (tem hora que empaca, feito burro atrevido — aí, o negócio é desistir).
Às vezes, confesso, eu me canso, mas é mais de ficar sentado, olhos grudados na tela do computador. Certos textos me aborrecem, assim como a falta de ideias ou a insistência de temas rabugentos, que não evoluem, e assuntos que não consigo concluir de forma satisfatória. Na maioria dos casos, vou lapidar como uma joia, que fique conforme minha vontade.
Gosto de encarar meus textos como quadros, pinturas, sabendo que em algum momento eles vão se submeter ao escrutínio de alguém. Não exerço preferências, sei que os textos, assim como os quadros, podem receber comentários breves, elogios ou encerrar sua carreira num depósito escuro. Certas coisas, como lasanha de berinjela, por exemplo, não agradam a todos os gostos. As leituras e o paladar, apesar das unanimidades, tipo pão de queijo ou doce de leite, dependem de contextos complexos.
Restringindo-me aos textos, sei que não consigo cumprir as expectativas, em especial as mais exigentes, mas meu objetivo não é agradar, muito menos desagradar, é ser compreendido pelos leitores. Anos de aprendizagem como professor me conduziram a isso; se eu não for o suficientemente claro, terei de repetir todo o caminho metodológico e teórico, voltar ao começo, retocar o meio e refazer o final. Em muitos casos, preciso causar espanto, estimular o raciocínio, sem me esquecer de distrair o freguês e proporcionar alguma reflexão. Pode ser uma coisa só ou tudo junto e misturado: retificar caminhos e brigar com a lógica formal. Por que não? Só não posso desconsiderar as diferenças culturais e as limitações, as minhas e as dos outros. No mais, viva o texto livre e solto, soltinho como o arroz da galinhada de domingo que será degustada entre amigos.
Não posso me esquecer que não trabalhamos só com palavras, mas com ideias. Podemos começar de um jeito e terminar de outro, sem nos esquecermos da coerência, dos propósitos. Receber críticas é importante, melhor ainda é ter interlocutores, que se disponham a conversar sem receios, preconceitos ou julgamentos rígidos. Alguém que amplie nossas escolhas, melhore nosso discernimento sobre a realidade que nos rodeia.
Os textos mudam porque a vida se transforma, nossas preocupações se modificam com o passar do tempo. Alguns se enrijecem, defendem valores retrógrados, se fecham. Outros compreendem as mudanças inevitáveis que nos conduzem a caminhos diversos. Assim são os textos.