O menino chegou com o pai à repartição. Devia ter três anos. Chegou ressabiado, estranhando aquele mundo cheio de gente, bancos duros e uma televisão que apenas mostrava números — as senhas —, mas isso era incompreensível e inútil para o menino. O pai precisava ficar atento para não perder a vez.
Dez minutos se passaram e nada. Os números se sucediam no painel e não o chamavam. Aos poucos, o menino foi se incomodando. Nenhum brinquedo, nenhum parquinho, nenhuma diversão. Tinha um bebedouro, mas não era acessível. O menino se inquietava. Chateado, começou a se contorcer no banco. Naquela idade, ainda não tinha sido adestrado para ficar imóvel, acompanhando o suceder de números no painel, sem desenhos nem música.
Olhou para trás e enxergou outras pessoas, todas mais velhas, rostos sérios, desinteressados em relação ao que se passava com ele. O ambiente, cada vez mais chato, cansativo, sem atrações adequadas à sua idade. Às vezes, sorriam para ele numa vã tentativa de distrair alguém que não devia estar ali. Pior se tivesse ficado em casa. Lá já estavam os dois irmãos mais velhos sob a supervisão da vizinha de frente, que lavava roupas para fora. Não havia opção. Ela não garantiu ao pai que cuidaria dos meninos, mas estaria de olho. O jeito era levar o filho mais novo, precisava do documento. Não podia ficar com a mãe, ela estava no trabalho desde muito cedo. Melhor levar do que deixar em casa, onde ele podia se machucar.
A inquietação foi tomando conta. Contorcia-se cada vez mais, pediu água e o pai não quis se levantar; ninguém se ofereceu. O local não era agradável, existia em função da burocracia, e não a serviço dos usuários. O pai perguntou se ele queria dormir. Não! Se estava com fome. Não. Mas também, se estivesse, ele não iria sair dali para comprar um pacote de biscoito ou um salgadinho insosso.
Ensaiou um choro, agarrou-se no pescoço do pai e cochichou algo no seu ouvido. Vontade de fazer xixi? Recebeu mais uma negativa. Escorregou até o chão. Sentiu com a mão o piso frio e sujo. Pedia, pedia, pedia… água, bolacha, um brinquedo, mas o pai não tinha como atender: olhava, insistente, o movimento das senhas. Eram incompreensíveis as razões da demora.
Prestes a perder a compostura, a paciência, o decoro, avistou uma menininha da sua idade que se movia silenciosamente. Estaria na mesma condição dele? Os olhares se cruzaram e uma misteriosa identificação, própria das crianças, fez com que se aproximassem, como se fossem vizinhos, primos, amigos da creche. Nunca tinham se visto. A menina começou a dançar na sua frente. Um espetáculo que aliviou quase todo o público envolvido na tensão da senha, do tempo impassível, do banco austero da repartição.
Dançaram juntos, esquecendo sede, fome e cansaço. Se o mundo deixasse, seriam crianças para sempre.