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Dor de barriga

Renato Muniz
Publicado em 14/09/2026 às 20:44
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Dor de barriga é uma dor singular, mas não quero subestimar quem tem ou teve. Só quem foi acometido por uma sabe a dor que sente. O problema é que não podemos ver a dor. A gente sente, sabe que é na barriga, mas essa parte do corpo humano é grande, complexa, cheia de significados e segredos. Pode ser um problema no intestino — o mais comum —, gastrite ou outro problema no estômago, infarto, apendicite, hérnia, infecção urinária…

Pode parar! Melhor resumir: se você não tem um compêndio médico nas mãos ou um bom convênio, é dor de barriga e pronto. Tome um chazinho de boldo, diria minha tia. Minha avó recomendaria um chá de erva-cidreira, não capim-limão, e minha mãe receitaria um chá de carqueja. Melhor não perguntar a razão de cada uma delas. Sempre foram muito bem-intencionadas. Uma amiga aconselharia que eu ficasse deitado de barriga para cima e outra sugeriria que eu permanecesse de repouso e tomasse bastante iogurte. Se piorasse, eu deveria ir ao médico. Geralmente, passa.

E tem o frio na barriga, de menor gravidade. Talvez não seja orgânico, mas sintoma de apreensão, ansiedade, alguma doença psicossomática ou algum desconforto causado por um ataque aos direitos da população. Imagine você se eu tivesse de atravessar um córrego me equilibrando numa pinguela estreita e sem corrimão? E se estivesse prestes a fazer uma prova dificílima, ou a um passo de pedir em namoro a garota mais bonita de toda a escola?

É verdade que eu costumo exagerar nas porções de batata frita, macarronada, tutu de feijão e doce de laranja em calda. Não necessariamente nessa ordem. Será isso? Tem dia que eu como muito rápido, em demasia. Confesso que sou guloso. Para quê? Parece a última refeição da minha vida; fico aflito, pensando que tenho de correr atrás do prejuízo, tenho de impedir o assalto aos cofres públicos, conter as hordas infelizes e sua cobiça insana. Melhor fazer jejum e passar longe das náuseas autoritárias dos inconsequentes e dos doidinhos cabeça de vento.

Não descarto uma intoxicação alimentar, causada certamente por algum microrganismo prejudicial ao convívio democrático. Precisamos melhorar nossos hábitos alimentares, a qualidade dos nossos alimentos e a das nossas instituições, proibir agrotóxicos e outros venenos, evitar os mentirosos, os vírus e as bactérias que corroem o país por dentro, sem nos esquecer das ameaças que vêm de fora, né?

E eu aqui, fazendo troça com dores de barriga alheias, rindo de coisa séria, espinafrando os que se levam a sério em excesso. A vida pede calma, diversão e arte. Se possível, uma comidinha caseira ou um pão de queijo com café no meio da tarde. Canjica também vai bem, sem misturar alhos com bugalhos e nada de confusões metafóricas. Cuidemos da nossa saúde, sem traumas e com refeições esperançosas para todos, sem percalços que ameacem nossa jovem república.

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