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Eu conheço vocês

Renato Muniz B. Carvalho
Publicado em 25/05/2026 às 18:29
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Se há uma coisa que me encanta é o comportamento humano, sobretudo o comportamento singular, imprevisível, nem sempre presente ou visível para quem anda distraído por aí. Gosto da surpresa, da delicadeza, não da crueldade, da trapaça ou do autoritarismo. Gosto das condutas inusitadas, sensíveis, aquelas que você não espera, mas não te desrespeitam. Respondo com um sorriso, braços abertos, um beijo, um abraço.

Imagine que a pessoa está caminhando, um pedestre a interrompe e fala qualquer coisa engraçada. Pega de supetão, ela se espanta. Vai puxar conversa? Se afastar? Chamar para tomar um café no boteco da esquina? É no imprevisto que o comportamento humano se revela mais autêntico. Pode até ter sido um ato pensado, mas o que me agrada, me dá gosto, são as atitudes espontâneas. Imagine se alguns objetos se comportassem como gente. Livros, por exemplo.

Livros chamam a atenção, estão sempre nos surpreendendo, pelo conteúdo ou pela forma, pelo sim ou pelo não. Às vezes, algumas pessoas estão em guerra contra eles; às vezes, são ignorados, desprezados, deixados de lado. Livros não têm perninhas, não saem correndo por aí. Pois deveriam ter! Pense em livros que vão em busca de leitores. Olhariam o candidato, estudariam seu jeito e sairiam correndo atrás do camarada, do possível leitor ou leitora. O que você acha disso?

Dependendo da pessoa, os livros seriam bem recebidos, acolhidos, levados para casa, onde estariam abrigados, a salvo da água, dos raios solares, do mofo. Outros — é pena, ainda existem — os tratariam como cachorros de rua que recebem maus-tratos, chutes, desprezo.

Os que costumam se preocupar com seu próprio umbigo e atender apenas às ordens de capitães do mato, de capatazes e dos poderosos do mundo estão sempre em guerra contra o livro; por consequência, contra leitores, escritores, estudantes e todo o pessoal envolvido na atividade livreira, dos balconistas das livrarias e sebos aos editores mundo afora. Quer saber? Quem não gosta de livros teme o futuro e detesta a vida.

 Pode ser uma guerra disfarçada, mas também pode ser declarada, de armas na mão. Imagine mísseis e drones lançados contra bibliotecas, escolas, residências, uma tristeza sem par. Imagine soldados derrubando estantes, ateando fogo em volumes raros, obras de arte, exemplares únicos e antigos. Não me refiro a papel, mas a ideias, registros históricos, memórias, humanidade.

Prefiro imaginar os livros de braços abertos, prontos para me darem um abraço gostoso. Livros com rosto e alma, desenhados em traços simples, com braços e pernas, que é como me recordo dos meus livros da infância, antigos volumes ilustrados. Era como se eu pudesse falar com eles — e falava.

As leituras eram, e continuam a ser, agradáveis, puro prazer ou informação. Eu falo com meus livros, me surpreendo com o que leio, quero saber o que têm para me dizer. E sussurro no ouvido deles: “eu conheço vocês”.

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