Leio, num importante periódico científico, um breve artigo sobre “excitações eletrônicas”. Bem, dizer que leio é ser um tanto condescendente comigo mesmo. Para falar a verdade, eu pulo, de palavra em palavra, como se caminhasse sobre pedras num córrego, sabendo que a qualquer momento posso pisar em falso e levar um tombo. Que entendo eu de computação quântica, de decaimento eletrônico ou de valor quantizado? De excitação é outra história. Fico excitado desde sempre, mas pode parar por aí se você está pensando em deturpar minhas palavras.
Eu carrego em mim um entusiasmo infantil, uma euforia que me faz seguir em frente a despeito de perigos, golpes e ameaças. Tenho vários medos, mas, com relação a certas situações, nunca perdi o apetite — inclusive para comidas. Tenho preferência por alimentos da região onde nasci e cresci, mas aprendi a apreciar pratos típicos do mundo todo. Gosto de mato, de cachoeiras, de praias e de montanhas, mas me deixo seduzir por construções antigas, casebres, muralhas, ruínas, aquedutos ou velhas igrejinhas. Gosto de visitar vilas, distritos, povoados longínquos, geralmente eles têm um povo acolhedor. Encantam-me as técnicas construtivas das moradias do passado, a beleza arquitetônica, os detalhes e os entalhes — nos telhados, nas paredes ou nas janelas. Gosto de observar os arranjos e desenhos feitos com as madeiras que escoram as estruturas: vigotas, caibros ou troncos. Não me canso de olhar e de admirar, sei que estou diante da criatividade e do conhecimento humanos.
A agitação da vida me move. Fico abalado quando percebo mentiras, injustiças, miséria, maus-tratos a pessoas e a animais. Fico triste e incomodado com a perspectiva de guerras, de massacres, de genocídios, da opressão política e a destruição do patrimônio histórico, arquitetônico e cultural da humanidade. Certas pessoas nem sabem o que é isso ou qual a importância que essas “coisas insignificantes e antigas” têm para o futuro.
As árvores me atraem, me arrebatam por sua beleza e serenidade. Vejo nelas, acima de tudo, paz e flexibilidade. Fico enternecido com sua grandeza e brandura. Elas abrigam e acolhem; como é bom ficar à sua sombra, ler um livro, descansar, passar um tempo. É bom subir nos seus galhos mais altos e olhar longe, comer seus frutos e presentear a pessoa amada com suas flores.
Já repararam nas pessoas que mergulham nas águas geladas de um rio? Como ficam excitadas. Observem as que se banham em cachoeiras, sejam pequeníssimas ou grandiosas, altas, poderosas. Vejam a euforia de quem mergulha em insondáveis poços profundos, em lagos brilhantes, em mares acolchoados de ondas. O que procuram senão excitação intensa ou a potência necessária para viver mais um dia?
Perdoem-me os físicos e os religiosos, uso os conceitos com liberdade e atrevimento, só gostaria de dar um mergulho profundo na essência da vida e apreciar sua beleza pagã. Os portais quânticos do universo hão de compreender minha ousadia.
Renato Muniz B. Carvalho