Outro dia, resolvi passar num ferro-velho. Era um galpão antigo e decadente. Na verdade, eu não estava precisando de nada, não queria peças antigas, parafusos ou ferramentas — estava à procura de respostas. Respostas que eu pudesse usar hoje e, talvez, no futuro. Achei que ali encontraria algumas, naquele lugar anacrônico, repleto de velharias, de coisas acumuladas e enferrujadas. Recinto cheio de objetos inúteis, que um dia iriam para a reciclagem, provavelmente derretidos, transformados num grande caldo civilizatório. Sobrarão as cinzas sobre as quais se assentarão as bases de novas sociedades.
Não sou caçador de antiguidades, embora, no passado, tenha recorrido a ferros-velhos em busca de peças mais baratas e que ainda tivessem alguma serventia. Geralmente, eu ia em busca de componentes para máquinas antigas que ainda eram usadas. Nunca gostei de jogar nada fora, não por mania de acumular, mas porque detesto desperdícios. Sou desses que usam uma máquina até o osso. Enquanto for possível, vou reformar, trocar peças, consertar o que puder. Mania besta essa das pessoas que jogam fora coisas que ainda poderiam servir por mais um tempo. Por isso, não espanta ver tanto lixo espalhado em todo lugar.
Enfim, tem quem vá a ferros-velhos em busca de histórias, de resquícios de antigas sociedades. Não se ofendam se alguém os comparar a museus; poderiam até cobrar ingresso. Mas não vou dar ideia. Minha intenção aqui não é discorrer sobre compra e venda de artefatos antigos, de objetos usados que podem “quebrar um galho” e economizar um dinheirinho. Minha preocupação é existencial, filosófica, metafísica. Torci para que o dono não me expulsasse do seu santuário.
Observar a sucata exposta a céu aberto, sentir o silêncio assustador, serve para refletir sobre a vida, o tempo e nossas andanças erráticas em busca de sei lá o quê. Ali estavam peças muito mais velhas do que eu, itens dos tempos dos meus avós ou, quiçá, dos meus bisavôs. O que sobrou da época deles além das recordações e de algumas fotografias amarelecidas? O eixo de um carro de boi, uma faca enferrujada, uma chave substituída por uma fechadura eletrônica, uma ferramenta que nunca mais será usada, pois ninguém saberá como a utilizar. Não sei se fico triste ou alegre. Eu queria pensar com base em algo concreto, com a ajuda de elementos que eu pudesse ver, colocar a mão, compreender a trajetória antes que desaparecessem por completo.
Acho instrutivo conjecturar sobre objetos que tiveram utilidade um dia e, agora, não têm mais, perderam seu lugar na vida moderna. Preocupa-me entender onde as pessoas entram nessa lógica de uso, substituição e perda, porque é isso que a sociedade cobra de nós. Certas coisas não se mudam por decreto, muito menos por um desejo íntimo, individual. Eu poderia considerar questões como viabilidade econômica, acumulação insensata ou impacto ambiental, mas meu interesse transcende a lógica efêmera da sociedade de consumo.