Só tem um jeito de guardar as palavras que me vêm à cabeça: escrevê-las num pedaço de papel. Senão, eu esqueço. Perco as palavras, as ideias, o assunto, me perco. Volto, refaço caminhos, sento, espero, e as palavras de que eu precisava não aparecem, não dão sinal de vida. Melhor me conformar, aceitar o fato consolidado, irreversível. Comigo é assim: pensou, não escreveu, perdeu.
Eu sei que a frase não é assim, mas essa é minha; nunca vi em outro lugar, num livro, nos jornais ou nas revistas. Nem no celular ou no computador. Não estou reivindicando autoria ou privilégio: as palavras não têm dono, são do mundo, do povo que as usa, seja de que jeito for. Devem correr o mundo, como uma maratona sem vencedores ou perdedores.
Às vezes, fico preocupado com essa desmemoriação. Sei que essa palavra nem deve existir, mas, se eu a escrevi, é porque pode vir a existir um dia. Quando? Não sei. Seja quando for, que venha sem proprietário ou feitor.
Se esqueço as chaves, os óculos, o dinheiro, as meias sujas, por que não posso me esquecer das palavras? Pensei em criar um cartão de memórias, mas apareceu o cartão do descrédito, e o assunto morreu. Não foi para a frente, estacionou na última vaga do fim da rua e por ali ficou. Será que volto um dia para buscar?
Não gosto de me esquecer das pessoas, embora de algumas eu nem faça muita questão. Gosto de lembrar os nomes, onde as conheci, se devo a elas algum favor ou se são elas que me devem algo, talvez um dinheirinho ou uma frase de alento, de estímulo. Mas me esqueço, e não é por maldade: é puro esquecimento, não descaso. Quem nunca esqueceu o nome de uma pessoa que nos parou no meio da rua, nos chamou pelo nome, abriu um sorriso e nos pediu confirmação de que a conhecíamos? Situação embaraçosa. Pior do que esquecer onde colocamos o pen drive repleto de conteúdo comprometedor.
Esquecer de pagar as contas é ruim; isso acontece com qualquer um e nem sempre é por malandragem ou por falta de grana. Esquecimentos acontecem com os mais honestos (e com os pilantras também). Ainda que sejam centavos, é inconveniente e pode trazer aborrecimentos. Esquecer de pagar a conta de luz pode te deixar no escuro. Esquecer a carteira em casa ou no trabalho é lamentável; mas mais constrangedor é esquecer o aniversário do melhor amigo.
Não gosto de esquecer onde parei a leitura de um livro. Isso acontece quando me esqueço de usar um marcador de páginas. Eu jamais usaria um clipe ou dobraria a orelha da página; prefiro marcar com um guardanapo usado. Vou guardar, para não me esquecer, as promessas feitas pelos candidatos nas eleições, e as declarações de amor sussurradas no meu ouvido no último fim de semana.