ARTICULISTAS

Mês de empinar papagaios

Renato Muniz B. Carvalho
Publicado em 03/08/2026 às 19:18
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Não sei se falo das mudanças climáticas, de política ou de nada disso, mas os ventos fortes desses últimos dias exigem algumas reflexões. Lembrei dos tempos em que eu, ainda garoto, e depois adolescente, saía em busca de um descampado para empinar pipas. Adulto, pai de três filhos, tentei ensinar a eles a ciência e os segredos do vento, mas não tive muito sucesso. Talvez por inabilidade minha, talvez porque fosse uma diversão controlada por um adulto. Crianças gostam de autonomia. As diversas etapas, da montagem das pipas à conquista dos ares, tornam a brincadeira prazerosa; podia até haver disputas entre turmas rivais. Nunca usei cerol (linha com vidro moído), embora tenha presenciado pelejas acirradas, verdadeiras guerras para derrubar pipas alheias. Dá vontade de fazer uma piadinha, usar uma ironia, mas não compensa.

Uns chamam de pipa, arraia, bolacha; outros, de papagaio e mais o que vier e voar. Denominações regionais à parte, eis uma das atividades mais populares entre crianças de diferentes lugares, idades e épocas. O fato é que a brincadeira ganhou os quintais, as praças e as áreas verdes Brasil afora. É atividade comum nas férias, mas basta soprar um ventinho e o simpático pedacinho de papel voa livre nos céus nem sempre seguros das periferias e de outras áreas abertas, sem cercas, prédios altos, fios elétricos ou muros por perto. Esses são os verdadeiros vilões das pipas. Empinar um polígono de papel ou plástico nos dá uma sensação de liberdade inigualável; melhor do que isso, só voando junto com o frágil e efêmero engenho.

Na fazenda do meu avô, a atividade era típica das férias do meio do ano, quando podíamos nos dedicar a isso sem precisar nos preocupar com hora do banho, tarefas escolares, leituras, etc. Tínhamos de nos preocupar com a presença de buracos de tatu nos pastos e com vacas paridas, ciumentas de suas crias. As melhores condições climáticas eram as do mês de agosto, que muitos chamavam de “mês do vento”.

Bastava chegarem as férias e fazíamos uma parada obrigatória no armazém ou na papelaria para comprar papel de seda e cola. As varetinhas eram feitas de bambu, e as linhas obtínhamos com as mães ou avós. Com o passar do tempo e a estranha constatação de que os dias diminuíam a cada ano, chegaram as varetas de madeira, os modelos com ilustrações exóticas, como aviões de guerra ou super-heróis, e as pipas prontas. Para nós, o encanto estava se encerrando: era o fim da infância.

Os fortes ventos, que derrubam telhados, postes e árvores, e as mudanças climáticas anunciadas podem representar mais um duro golpe na gostosa brincadeira. Se pouca gente se dedicar a isso, perderemos um conhecimento imprescindível e uma oportunidade de lazer, que será, provavelmente, substituída por atividades isoladas, individuais, dependentes das telas do celular, de um tablet ou computador. Estamos conversados?

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