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Minha caixa de ferramentas

Renato Muniz B. Carvalho
Publicado em 04/05/2026 às 17:58
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Caros leitores, vou usar este espaço, que é, preferencialmente, destinado a notícias e serviços variados colocados à disposição do distinto público, para pedir ajuda. É que eu fiquei velho e estou tendo dificuldades com muitas coisas. Não estou reclamando, não quero transformar esta coluna num espaço de lamentações. Além disso, como o povo costuma dizer, se envelheci é porque cheguei até aqui. Muitos ficaram pelo caminho. A eles, meu profundo respeito — e, quanto a alguns, confesso uma grande saudade.

Para não incomodar vocês com solicitações desnecessárias, petições, demandas e apelos inúteis, vamos logo ao assunto do dia: não sei o que fazer com minha caixa de ferramentas. Vocês têm uma dessas caixas? Se têm, usam? Ou está perdida em algum vácuo da sua casa?

A história da minha caixa começou muitos anos atrás, eu devia ter uns quinze anos. Ao observar meu pai mexendo na dele (sim, ele tinha uma, de madeira, fechada com um antigo cadeado), devo ter perguntado sobre o alicate, e ele achou melhor me presentear com um, evitando, assim, que eu usasse o dele e o perdesse, estragasse, deixasse enferrujar, sei lá. Não teria sido a primeira vez que quebrei ou estraguei algum objeto dele, como aconteceu com o globo terrestre que ficava sobre sua escrivaninha e do qual ele tanto gostava. Não teve conserto.

Toda vez que ele precisava de alguma ferramenta, lá estava eu, curioso, aprendiz. Depois do alicate veio o martelo, em seguida um serrote, uma chave inglesa, e logo eu já estava em condições de realizar pequenos reparos, desmontar objetos elétricos, radinhos de pilha, máquinas avariadas, etc. Faltava a caixa para guardar o material. Juntei minha mesada, fui à loja de ferramentas e comprei minha primeira caixa. De metal, verde — ajeitada, viu!

Nessa época, havia coisas a serem consertadas, e até um menino dava conta de trocar uma torneira, apertar os parafusos de uma cadeira, fazer uma extensão elétrica ou trocar o interruptor do abajur. Coisas simples, mecânicas, feitas com boa vontade, algum conhecimento e destreza. Eu dava conta e nunca quis me desfazer das minhas ferramentas. Elas aumentaram consideravelmente. Nunca acreditei que as coisas se consertam sozinhas. Mesmo no terreno das relações humanas, da psicologia ou da sociologia, a devida ajuda é bem-vinda. Certos objetos sempre precisaram de alguma intervenção, uma martelada aqui, uma chave de fenda ali, e assim foi até o início do século XXI.

Não percebi quando, mas sei que, um dia, mudou tudo. Ninguém consertava mais nada. Quebrou, jogava fora e comprava outro. A transformação foi enorme. Enquanto isso, a caixa ficou esquecida, raras vezes alguém pedia para trocar algo. Em resumo, pensei em me desfazer dela. Confesso: à medida que escrevia este texto, fui tomado por uma estranha e melancólica incerteza quanto ao futuro. Resolvi deixar a caixa quieta, esteja onde estiver.

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