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O antigo tacho de cobre

Renato Muniz
Publicado em 28/09/2026 às 21:25
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Acho instrutivo observar a trajetória de alguns objetos. Gosto de saber de onde eles vêm e para onde vão, não apenas no sentido de seu deslocamento no tempo e no espaço, mas mudanças em seu significado e sua simbologia, entre outras questões.

Vejam o caso do tacho de cobre da minha avó. Desde pequeno, eu me recordo dela girando em torno do famoso utensílio. Girar não é uma figura de linguagem: ela literalmente dava sucessivas voltas em torno do tacho. Tinha nas mãos uma pá, ou colher, de madeira, empunhada com diligência e potência. Não era serviço para qualquer pessoa. Ela e uma tia se revezavam. A fornalha ficava no centro de uma varanda ampla, o que permitia o volteio mencionado. Pamonhas, doce de leite, goiabada cascão, banha de porco e sei lá mais o que passavam por ali. O tacho tinha uma serventia impressionante: além dos doces e salgados, servia para fazer requeijão e até ferver roupas sujas.

A limpeza do tacho era um assunto à parte. Ela dizia, e assim nos transmitiu, que o zinabre, produto da oxidação do cobre, era tóxico e precisava de um trato especial antes do uso. Esse trato consistia em esfregar sal e limão no seu interior. De fato, ficava brilhante. Uma reação química desconhecida para nós transformava a superfície escura e esverdeada e permitia sua utilização como apetrecho culinário da maior grandeza. Acabei gravando aquele termo diferente e aprendi, com o tempo, que não era muito saudável usar o tacho de cobre no preparo dos alimentos. O mesmo aconteceu com os alambiques de cobre.

Com a morte da minha avó e da minha tia, o tacho caiu no esquecimento e foi aposentado como fonte de iguarias tão gostosas. Ressurgiu em um novo capítulo. O tacho se transformou, mudou-se da cozinha para a sala e se tornou objeto de decoração. Passou a ostentar em seu interior revistas chiques, de moda, de turismo, com fotos espetaculares de paisagens jamais imaginadas por meus avós. Não fossem os comentários dos mais velhos, a nova geração diria que aquele tacho nasceu ali, no canto da sala de visitas, próprio para guardar revistas de futilidades.

Tempos depois, numa das infindáveis reformulações que a vida nos proporciona, o tacho foi relegado a segundo ou terceiro plano. Nas residências modernas, envoltas em outros tons, já não há mais lugar para ele. Quem quer? Ninguém. Os que se recordavam dos tempos antigos esboçavam expressões de desconsolo e nostalgia, mas a vida tinha de seguir em frente, não é? A residência atual exige objetividade, limpeza, desobstrução dos espaços. Os tempos provisórios cobram outras atitudes e objetos.

Para onde vai o velho tacho? Para a reciclagem, para o lixão, para um antiquário ou para um depósito qualquer, onde ficará esquecido. Quantos objetos têm trajetória semelhante? Não estou falando só de objetos. Nós mesmos, um dia desses…

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