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O espelho no elevador

Renato Muniz B. Carvalho
Publicado em 10/08/2026 às 17:41
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Podem acreditar no que digo, pois é verdade. Sim, conheci pessoas que se recusavam a entrar num elevador. Não me lembro quando foi a última vez; faz tempo. Era algo raro, mas causava estranheza. Respeitávamos a vontade da pessoa. Eu pensava: o que faz uma pessoa se recusar a andar de elevador? Aliás, “andar de elevador” é um termo para lá de esquisito, né? Ainda bem que esse receio diminuiu com o tempo. Será que ainda existem pessoas assim? Só podia ser alguma fobia, pavor, aflição. Tinha uma senhora que levava quitandas lá em casa e esperava quietinha na portaria alguém descer para buscar a encomenda. Nós morávamos no sétimo andar de um prédio. Subir pela escada nem pensar, o joelho dela não ajudava. Ir de elevador ela não ia de jeito nenhum. Eu ficava pensando, elaborando hipóteses: medo do troço despencar? Medo de ficar presa? De ficar no escuro? Sei lá!

Ao longo do tempo, os elevadores não mudaram tanto quanto os carros, por exemplo. Daqui a pouco, carros andando sozinhos nas ruas será algo corriqueiro. Eu me refiro aos veículos autônomos, que não precisam de motoristas. Bom, elevadores já fazem isso: se no passado existia a figura do ascensorista, hoje basta apertar um botão e lá vão eles até o andar desejado. Quanto aos carros, se voltarmos aos primeiros exemplares, no começo do século XX, e os compararmos com os de hoje, veremos como foi intensa a evolução tecnológica. Ela envolveu velocidade, segurança, informatização, conforto, etc. Só falta compreender que o investimento preferencial neles acarretou vários problemas ambientais, urbanísticos e de saúde para as pessoas. Os elevadores também causaram impactos — por exemplo, ao facilitar a verticalização das cidades.

Como conseguimos, enquanto sociedade, superar o medo dos elevadores? Existem estatísticas sobre acidentes com elevadores. Ao fazer uma pesquisa rápida na internet, encontrei menos de cinquenta mortes por ano. Dizem os especialistas que a chance de um despencar é quase zero. Esse medo ainda persiste? O que foi feito para combatê-lo? Colocar música ambiente durante o sobe e desce? Colocar telas com mensagens promocionais, notícias do futebol e previsões do tempo? Fazer terapia? Entrar com um acompanhante? Dê a sua sugestão, se quiser, se não tiver medo de se expor.

Mas eu queria falar do espelho que existe em alguns elevadores. Talvez seja uma das coisas mais eficazes para combater o medo de elevador. O que as pessoas fazem quando entram no elevador e se deparam com um espelho? Olham-se; será que isso diminui o medo? Muitas arrumam o cabelo, reparam na própria barriga, conversam consigo mesmas. O espelho distrai o passageiro. É terapêutico, sem dúvida.

Que medos sobrevivem? O medo da política, das incertezas cotidianas, de um livro, da arte moderna, de ler em voz alta, do pensamento autônomo? Quantos medos ainda precisamos superar e como vamos fazer isso?

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