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O fim do mundo

Renato Muniz B. Carvalho
Publicado em 02/02/2026 às 18:18
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O mundo vai acabar. Não sou o primeiro a dizer isso, nem o mais irresponsável. Aliás, o mundo esteve prestes a acabar por diversas vezes e de diferentes maneiras: ardendo em chamas, segundo a cabeça doentia de alguns fanáticos, pelo impacto de um meteoro gigante que veio do espaço, após uma nevasca que congelou tudo, quase foi destruído por bombas atômicas, sei lá mais o quê.

Falando em bomba atômica, a Terra poderia ter sido destruída várias vezes — fora o inverno nuclear. Existem especulações feitas nos anos 1960 calculando quantas vezes o mundo poderia desintegrar-se a partir do arsenal à disposição de meia dúzia de países naqueles tempos de Guerra Fria. A ameaça continua.

O mundo costuma acabar na Quarta-Feira de Cinzas e no primeiro dia útil do ano novo. Já acabou para os fiéis de várias igrejas apocalípticas dos últimos dias, sem esquecer o bug da internet no ano 2000. Lembram-se disso? Tempos loucos, quando passamos a dar mais valor aos bits do que a outras formas de expressão da sensibilidade humana.

Tudo acabou para o Zezinho quando sua namorada não ligou mais, sequer mandou um bilhete. Acabou quando o Juca foi demitido e foi beber todas no boteco do fim da rua. Bêbado, bateu a cabeça na sarjeta e, segundo o plantonista do PS, foi por pouco que sobreviveu.

O mundo acaba um pouquinho a cada noite quando caímos na cama, mortos de cansaço. Muitos não aguentam mais nada e dormem até o dia seguinte. Acaba quando percebem que não tem mais pó de café, mas têm de ficar acordados até o fim, o fim do mundo, do expediente, das aulas noturnas, que são o fim da picada, o fim da linha, o ponto final, o final do mês e o derradeiro salário.

O mundo acaba de modo triste e desesperador na frente da televisão no sábado à noite e não aparece sequer uma alma bondosa para irmos juntos curtir o último pôr do sol antes de tudo se desmanchar em lama, suor e lágrimas. Tudo termina em filmes e séries infindáveis, dormimos de boca aberta e a saliva escorre molhando o pijama. Que final mais besta!

O fim do mundo será televisionado, como disse um filósofo francês, e o vídeo será exibido em milhares de celulares, nas redes sociais, espalhando mentiras sobre a terrível luta entre Deus e o Diabo, com direito a raios, trovões e o cacarejar de galos até a última saracura gritar seu apelo melancólico na madrugada do juízo final.

Aí, o nível do mar vai subir até o Everest e vai afogar todos os alpinistas e os oportunistas derrubando palácios com fúria implacável. Vai sobrar alguma coisa para a gente? Migalhas de pão e páginas amareladas de livros disputados por teóricos e pragmáticos. Só sei que o fim do mundo virá enigmático, sorumbático, apático.

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