Pensei que fosse um enfeite, um objeto de cerâmica ou de plástico. Embora imóvel, era real, um legítimo bicho de pelo, carne e osso; seus olhinhos brilhavam, apesar da confusão de cores do entardecer. Reparei melhor e vi que ora estavam fechados, ora abertos. À sua maneira, o bicho observava tudo ao redor. Sua imobilidade não era preguiça, talvez um método para caçar passarinhos desavisados, ratinhos e outros bichos da fauna local. Fazia-se de desentendido enquanto aguardava o momento certo para o bote fatal.
Era um gato, sem dúvida. Estava parado, quieto, feito estátua, envolto em variados tons multicoloridos mesclados com as gradações do crepúsculo. Acocorado em cima do telhado da casa da frente, olhava tudo ao redor. Um bicho estranho, compenetrado, um caçador eficiente. Pode ser que se encontrasse ali com a missão de me observar, por que não? Queria ver como eu reagia? Seria essa a sua intenção? Não tinha mais o que fazer na vida? Eu era sua presa ou um predador? Minha presença o intimidava, daí sua paralisia?
Ele parecia sóbrio, prestando atenção em tudo, estrategicamente posicionado no vão entre duas telhas. Se por ali pousasse um passarinho distraído, já era, viraria comida de gato, com penas, ossos e tudo. Pobre avezinha.
Eu poderia ter ido embora, cuidar de meus afazeres, que não eram poucos, mas fiquei. O gato me enfeitiçou, não consegui sair dali, do meu posto de observação. Quanto tempo eu ficaria ali? O resto da noite? E se chovesse? E se não aparecesse nenhuma presa? Quem era o observador e quem era o observado? O gato me idealizava como seu observador ou me concebia como produto da sua curiosidade? Pensei que, se ficasse, talvez pudesse compreender suas vontades, seus anseios, suas angústias. Mas percebi que as deficiências e medos eram meus. O que ele pensava disso? Aliás, gato pensa? Quem sou eu pra dizer que não ou que sim?
Eu poderia ficar ali a noite toda até chegar a uma conclusão — ou perder meu tempo. E ele, até quando ficaria nessa? Até conseguir caçar seu jantar? Saciar sua fome e descansar? Não, eu não tinha as respostas. Deixei meus pensamentos vagarem livres e soltos, sem me preocupar com raciocínios lógicos nem conceitos aprimorados e bem-acabados. Coloquei-me no lugar do gato e passei a observar o mundo à nossa volta.
O que ele pensa de tanta sujeira espalhada por aí? Poderia ser uma ótima oportunidade de aumento de seus alimentos — como ratos, por exemplo. Ele sabe que a água está contaminada? Que muitas pessoas passam fome e vivem do lixo? O que será que ele faria se soubesse que a desigualdade social só aumenta? Que as pessoas leem menos, que estão cada vez mais sozinhas? Ora, ele não lê, não se importa com livros e muito menos com mudanças climáticas e outras questões políticas. E nós?