Quer você queira ou não, quer goste ou não, as mudanças climáticas estão aí. A realidade é dinâmica e costuma nos pegar de calças curtas. É preciso reconhecer a complexidade dos fenômenos para além da nossa vontade: às vezes, está frio quando a gente imagina que deveria estar quente, ora é a estiagem que domina quando gostaríamos que chovesse. A sensação é de descrença no entendimento do clima. Ou no ser humano? Tudo isso bagunçou nossas percepções a respeito do tempo. Meu avô estaria perdido numa situação dessas, tão orgulhoso dos seus prognósticos quando saíamos por aí, passeando e conversando sobre árvores. “Vai chover hoje, vô?”, eu perguntava, sabendo que viria uma resposta definitiva, segura, certeira. Hoje, até a moça do tempo erra nas previsões, mas não é culpa dela.
Se a culpa não é do pessoal da meteorologia, de quem é? Da agricultura que abusou da água para irrigação? Da indústria que despejou resíduos tóxicos nos cursos d’água? De quem desmatou? De quem não se importou com a quantidade de gases de efeito estufa liberados na atmosfera? Do menino que escovou os dentes com a torneira aberta ou da menina que exagerou no banho? Cada um tem a devida responsabilidade e, na hora do voto, amém! Só que a conta não fecha, falta alguma coisa nessa equação.
Essa não é uma conta afeita exclusivamente à matemática, envolve cálculos complexos, raciocínio crítico sobre a realidade, a política e o ambiente. É de dar um nó na cabeça. A humanidade se depara com um novo contexto climático. Eventos extremos, precipitações intensas, aumento das temperaturas médias — tudo isso exige novas formas de pensar o mundo, as sociedades, ou o futuro vai azedar. Coitadas das futuras gerações. Vários estudiosos do assunto dizem que a temperatura média do planeta deve subir 1,5°C nos próximos anos, e isso não é bom. Desconfio de previsões ou exercícios de futurologia, mas os alertas parecem sérios o suficiente para mudarmos de atitude. Ou não?
O mundo que conhecemos está em um profundo processo de mudança socioambiental. Não acreditar nas transformações em curso, recusar ações de justiça social, ignorar as mudanças climáticas e desprezar o bem-estar coletivo resulta em ambições desmensuradas, indiferença com o próximo, elogio da ignorância, desconhecimento científico, exaltação do misticismo e de movimentos retrógrados. As consequências serão ruins.
Nesse instante, passei a mão no pescoço, eu estava suando. Olhei para o ventilador. Acho que o eletrodoméstico também estava com calor. Liguei, e o vento soprou, refrescando a sala. Até outro dia, estava parado, esquecido num canto. Hoje, ele me salvou nesta tarde quente. Não vai alterar os rumos da economia nem evitar o aquecimento global, mas me alegrou, aliviou o calor. Em todo caso, creio que alguns são mais responsáveis do que outros por essa situação, e eles estão se escondendo em salas com ar-condicionado. É preciso entender melhor essa conta.