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Opiniologia

Publicado em 21/07/2026 às 08:02
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Achei que não existisse tal coisa. Refiro-me à opiniologia. Parece que existe; melhor dizendo: acho que existe. Como o próprio nome indica, diz respeito às opiniões próprias e alheias, muito próxima do achismo, conhecem? Será uma ciência? Deve estudar as opiniões que vagam soltas por aí, que correm à boca miúda, nos escombros da razão e da crítica, nas fendas indigestas da ignorância e da insanidade, nos vãos escuros das escadas de antigos casarões assombrados. Os céticos hão de me perdoar.

Ela não se opõe à verdade; pelo contrário, usa seus fundamentos e manipula seus princípios, desaforadamente, sem vergonha, com objetivo e método. Não ouse refutá-la, ela pode ser mais confiável do que as superstições e os jogos de azar. Ela há de ultrapassar em importância a astrologia, e é coisa mais abalizada do que a radiestesia. Sim, radiestesia, a ciência por trás da prospecção de água no subsolo, cujo principal instrumento, além da sensibilidade pessoal, é uma varinha bifurcada, em formato de forquilha. Habilmente manejada por um especialista no assunto, encontra água e não falha. A radiestesia é famosa pela técnica apurada de segurar a varinha com as duas mãos e sentir as vibrações oriundas do precioso líquido existente no subterrâneo. Nem isso supera a opiniologia.

Por que não dar um voto de confiança a ela? Que mal tem? Muitas ciências começaram assim, em meio à desconfiança generalizada e atreladas ao descrédito. Vejam o caso da astronomia lunar: muitos acham que o ser humano nunca pisou no distinto satélite. Há quem acredite que a Terra é plana. Mas, lunáticos ou não, fazem poesia sobre isso, rezam para São Jorge, planejam expedições de exploração mineral e excursões turísticas. Sei lá, a confusão é grande, bem à moda da nova ciência em destaque. Vale tudo, meu caro, inclusive o nosso repúdio.

Os seguidores da opiniologia são os opiniólogos. São cientistas práticos, formados pelas mais idôneas fofocas e pelas mais fortes crenças desenvolvidas pela humanidade. Seu poder é incomensurável, são capazes de vencer eleições e derrubar governos. Nos dias de hoje, é inviável pensar a política sem os tais influenciadores. Eles são seres inconfundíveis, possuem uma força estranha e estão preparados para mover montanhas e transformar conhecimento em pó. Não devemos subestimá-los.

A opiniologia vai substituir o bom senso, derrotar a pesquisa básica, derrubar o método científico, a observação, a experiência, a dedução, as hipóteses, o método dialético, a fenomenologia, o estruturalismo, a estatística e por aí afora. Acabou o domínio do conhecimento, das escolas progressistas, da informação comprometida com a realidade. Estamos entrando numa nova era, muito mais fluida, inconstante, submissa às grandes corporações.

Admita-se que falamos de um mundo novo, capaz de suportar o autoritarismo e conviver com ele. É evidente que aceitamos qualquer coisa a serviço de esquemas ardilosos de prosperidade e domínio a qualquer preço. A opiniologia é a cara deste novo tempo.

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