Não sei se já falei para vocês, mas eu frequento templos. Costumo ir uma ou duas vezes por semana, mas, às vezes, fico uns quinze dias sem aparecer. Já pensei em não ir mais, sumir, mas não consigo. Passam os dias e estou de volta, sofro uma recaída e entro como um cão abandonado, com o rabo entre as pernas. Se me chutarem, ainda assim imploro que me deixem entrar.
Aliás, frequento vários templos, não sou o que se pode chamar de um cara fiel. Sou volúvel, desleal, errático. Como me assustam essas rotulagens! Sigo em frente. Minha coerência quem tem de me cobrar sou eu mesmo, não delego ordenamentos nem aprovação. Meu caminho sou eu quem rabisco.
Templos foram feitos para nos encantar, dos alicerces às mais altas cúpulas. Algumas pessoas entram neles e não saem mais. Crianças são presas fáceis. O ambiente é mágico, ou de mágico se finge. Luzes, cores, painéis brilhantes e sons incorpóreos. Carecem de ar doméstico, familiar. Sua maior deficiência é a ausência de pertencimento. O lugar não é meu, e não conheço o dono, mas desconfio. Onde vive? Onde faz compras? Como decide tudo o que tem de decidir estando em vários lugares ao mesmo tempo? Espantoso. Será a escolha criteriosa dos prepostos?
Saio deles carregado de pacotes pesados, insuportáveis, um peso sobre os ombros, ainda sem decidir se culpado ou alforriado, se enfadonho ou completo. Ah, a ditadura do consumo rápido, as respostas fáceis para dramas complexos. Não se sai incólume de um templo desses. A culpa se estende nos próximos dias, nos lares, nas empresas, nas repartições públicas, eles próprios templos onipresentes e autoritários.
De onde vieram esses templos e como se tornaram tão assíduos em nossas vidas? Fomos nós que deixamos isso acontecer? E agora nos tornamos reféns. Só falta entrar de joelhos, ou melhor, sair de joelhos, arrastando-nos feito vermes. Desde quando dominaram nossas vidas, determinando o que comemos, vestimos, pensamos, sentimos? Difícil viver as vinte e quatro horas de um dia comum sem prestarmos reverência.
Já briguei, insultei, me rebelei, mas acabo me submetendo. Entro cabisbaixo, contido, obediente. Não vou fazer troça, não vou jogar papel de bala nas frestas escondidas nem escarrar no chão. Sei, desde quando comecei a frequentar esses lugares com minha mãe, que não devo esconder coisas nos bolsos nem comer frutas sem pagar. A tentação maior é abrir as embalagens de chocolate e dar uma mordida de fazer inveja aos frequentadores mais conservadores, aos obstinados adoradores das leis vigentes.
Devo agir de modo cerimonioso, pagar, confirmar meu caráter consumista, meu direito de consumidor. É incoerente, eu sei, mas não vou me iludir nem me insurgir contra essas catedrais modernas, contra os templos sagrados do consumo. São tantos que me perco. Às vezes, doem-me a consciência, os ombros e as mãos sobrecarregadas de compras, de sacolas.