Na fazenda do meu avô, uma das regras mais rígidas que tínhamos de seguir era sempre fechar as porteiras, tronqueiras, cancelas, portas e semelhantes. A recomendação ficou gravada na memória. O costume não era mera formalidade ou manifestação de autoridade, era prevenção de problemas e prejuízos. Estivéssemos a pé, de carroça ou a cavalo, se passássemos por uma porteira, nossa obrigação era fechá-la. A displicência, quando acontecia, e era raro acontecer, era duramente repreendida, podendo ocasionar proibições ou castigos — como, por exemplo, ficar um dia sem nadar na cachoeira do córrego que passava no fundo do quintal ou sem poder andar a cavalo.
Além das questões práticas, do dia a dia, as porteiras, portas e similares adquiriram significados simbólicos curiosos. “De portas abertas” significando uma casa sempre acolhedora, acessível. “De porteira fechada” significando incluir numa negociação tudo o que tinha dentro de um estabelecimento comercial ou propriedade rural. “Escancarar as porteiras” significando romper, deixar abertas as passagens, ocasionalmente, desrespeitar as normas, expor movimentações particulares, boas ou más intenções e por aí vai.
Uma das frases que mais me encantavam na época, e que até hoje me deixam encafifado, é esta: “Eita, mundo velho sem porteira!”, expressão sempre dita com espanto, reverência ou admiração. Que o mundo é velho, conforme a perspectiva de cada um, é sabido, mas sem porteira? Onde elas estão? Fechavam o quê? Quem tirou do lugar ou deixou abertas? Foram os autoritarismos ou os movimentos de libertação? Deixar o mundo sem porteiras é bom ou ruim? Para nós, ouvir isso era um estímulo à reflexão, ao livre pensar.
Afirmar que o mundo não tinha porteiras podia significar que as amarras e cercas foram rompidas, e isso era bom. Cercas e muros representam controle, censura, poder do mais forte, que determina quem passa e quem fica, quem morre e quem vive, quem tem trabalho e quem passa fome. Quem abre as porteiras? Quem as quer fechadas?
Um mundo sem porteiras pode ser um mundo escancarado, grande o suficiente para todos usufruírem, sem barreiras, dos seus recursos e das suas belezas. A frase surge após um acontecimento estranho, diferente, advinda de um espanto, da incredulidade com as mudanças, mas com melancolia e sentimentos contraditórios de tristeza e de alegria. É a confirmação de que a ventania passou e levou as certezas embora, talvez não voltem mais.
Gosto da expressão e de seus inúmeros significados. Indica que as transformações vêm, mesmo que alguns não queiram ou não gostem. O mundo é grande e sempre alguém vai desobstruir os obstáculos para as boas-novas passarem. Não tiro as razões do meu avô; na verdade, ele estava defendendo o mundo dele, suas convicções. Talvez até compreendesse o caráter inevitável das mudanças, mas, naquele instante, ele precisava cercá-las. Certos acontecimentos atuais me fazem refletir sobre as porteiras fechadas que tentam limitar o mundo novo que, inevitavelmente, virá.