Estou à procura de uma caverna para alugar. Não precisa ser grande, dessas com muitos salões, nem com muitos espeleotemas, que são as formações rochosas típicas do interior das cavernas. Se tiver muitas estalactites e estalagmites, não tem problema. Prometo não as depredar, não arrancar nem destruir nada. Só preciso de um lugar quieto, silencioso e bem escuro à noite. Se não tiver muitos morcegos, melhor. Se eu puder pendurar uns quadros na parede, tentarei ser cuidadoso para não descaracterizar o lugar. Dispenso locais com a presença de pinturas rupestres, senão vou perder o sono tentando decifrar seu significado.
Tenho preferência por cavernas mais secas, sem a presença de rios interiores, muito menos aquelas gotinhas pingando das estalactites. Acho que não conseguiria dormir com uma gota pingando para o resto da vida. Meu ouvido e minhas neuroses não suportariam viver num lugar assim.
Seria bom, se não for querer muito, uma caverna com acesso fácil, com estacionamento próximo, onde seja possível chegar de carro bem perto da entrada principal. É claro que me comprometo a não buzinar nas cercanias, para não perturbar os demais moradores. Quero sossego, não quero ficar incomodado por causa de barulho de escapamentos, gritos, torcidas, festas, bebedeiras.
Preciso de pouca coisa. Vou levar minha televisão, mas só para ver o noticiário. Não ligo para novelas ou futebol. Não preciso de sinal de internet e não pretendo levar meu computador. Devo providenciar um bom estoque de papel e canetas. Vou levar minha vitrola e alguns discos LP de 33 rotações. Mas não costumo ouvir música em alto volume. Juro que desligo tudo antes das 22 horas.
Vou levar meus livros e peço uma ajuda especial para fixar as estantes. Como se sabe, livros não podem molhar nem ficar em local mofado. Talvez essa seja minha maior dificuldade.
Por último, o celular. Não, não pretendo levar. Não quero mais usar um aparelho desses. Nos últimos tempos, tenho percebido que as pessoas estão cada vez mais sozinhas, solitárias e individualistas. Só vejo pessoas, jovens principalmente, para baixo e para cima, com um celular nas mãos. Parece um novo órgão do corpo humano. Seria um novo cérebro ou um terceiro braço? Não sei, estou confuso.
Para tudo o que precisam, usam o celular. Documentos de papel não existem mais, estão todos no celular; dinheiro, idem; paga-se tudo com o celular. A comunicação se resolve com aplicativos de mensagens, quase nunca vejo pessoas conversando, como era a ideia inicial. Vejo muitas trocas de mensagens, conversas mesmo, nada. Ninguém mais usa mapas impressos. Jornais viraram artigos raros. Músicas e filmes, só no celular. Problemas de saúde se resolvem no celular. Isso é vida que se preste? Vou para uma caverna, mas não pretendo me isolar. Pelo menos uma vez por ano irei à cidade, nem que seja para passear numa praça, se é que elas sobreviverão.