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Sensação desagradável

Renato Muniz B. Carvalho
Publicado em 09/03/2026 às 18:04
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Basta um mínimo de discernimento para saber que muita coisa não vai bem no mundo atual. A crise é um projeto que vem de longe. Não é preciso se debruçar sobre dezenas de livros de história, de sociologia ou geografia — embora seja sempre uma prática recomendável — para sentir o cheiro de fumaça no ar. Um olhar atento ao noticiário e uma escuta cuidadosa dos discursos indicam o tamanho da tragédia que nos cerca. Vídeos chamam atenção para os estrondos e os estragos das bombas que caem cada vez mais perto.

Transformar o mundo num imenso campo de batalha não resolve nada em termos de soluções que levem ao progresso civilizatório. Além disso, ninguém tem o direito de sair por aí atirando, pilhando, prendendo e vilipendiando nações e povos. Disputas geopolíticas podem ser resolvidas em fóruns internacionais adequados. Peço desculpas se estou sendo ingênuo e me deixo envolver por visões românticas ou extemporâneas, gostaria que o mundo caminhasse em outra direção que não à porrada. O fato é que as guerras sempre trazem muita dor, morte e sofrimento, e não deveríamos aceitar que se repetissem os mesmos dramas e apenas sobrassem os destroços. O que nos impede de interromper as tragédias em curso? Estamos condenados à ignorância, à apatia, à fraqueza, ou sucumbimos aos interesses poderosos de grupos internacionais?

Às vezes, pego-me olhando para o horizonte e vejo prédios em chamas, pessoas feridas, crianças chorando, aviões despejando bombas sobre alvos civis, mísseis destruindo prédios. Sei que alguns podem ter a impressão de estarem distantes dos cenários de guerra, mas sinto que ela se aproxima a cada dia que passa. Um exame atento da realidade revela que faremos parte das paisagens destruídas, do patrimônio arrasado, dos cadáveres espalhados pelas ruas. É uma questão de tempo.

Nas guerras, o preço das mercadorias sobe; a educação, a arte e a ciência sofrem impactos negativos sem o necessário financiamento e estímulo governamentais; a insegurança domina as relações comerciais. Como a história nos ensina, o totalitarismo costuma se aproveitar desses momentos de medo e debilidade política.

As violências que se abatem sobre as demais pessoas também nos afetam. Não podemos ser indiferentes à dor alheia. É importante nos posicionarmos: de que lado estamos? Do lado de quem ordena o massacre, a morte e a submissão dos opositores ou do lado de quem busca a democracia e o entendimento entre os povos? Parece mera dicotomia, mas é mais complexo — e sangrento.

As tensões geopolíticas ativadas pelos recentes conflitos internacionais nos tiram o chão, abalam o ânimo, diminuem a confiança em relação à conquista e à permanência da paz. A quem esse cenário triste interessa? Quais grupos terão melhores condições de se proteger das terríveis consequências da desordem generalizada? Aliás, trata-se de desordem programada, prevista, estimulada. Quem vai conseguir segurar suas certezas com mais força? Teremos os argumentos necessários à nossa sobrevivência?

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