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Sentar-se à mesa

Renato Muniz
Publicado em 23/12/2024 às 20:04
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Uma das coisas mais difíceis do meu treinamento civilizatório na infância foi aprender a me sentar à mesa para fazer refeições. Imagino que para muitas pessoas também não deve ter sido fácil. Não pretendo fazer aqui um estudo antropológico desse hábito arraigado em muitas sociedades ao redor do mundo, apenas falar um pouco das minhas dificuldades. Quanto à humanidade, foi longo o caminho — após subir e descer de árvores, viver e dormir em cavernas e tendas — percorrido pelos humanos até desenvolver o costume de se sentarem à mesa para fazer suas refeições. Têm a ver com a origem das primeiras cidades, com os tipos de famílias ao longo da história e, hoje, com a economia industrial capitalista. É bom saber que nem todas as sociedades, nos tempos atuais, têm esse hábito. Não vou cair na besteira de dizer que esta ou aquela prática sejam melhores ou piores — cada povo, cada cultura, têm suas razões e suas próprias tradições. Combinado?

Desde que me lembro, na minha casa sempre existiu uma mesa com cadeiras. E esse móvel ocupava uma centralidade impressionante, mais relevante até do que o sofá da sala, o fogão ou a estante de livros. Devo esclarecer que difícil não foi saber como me sentar à mesa, posso dizer que nasci sabendo ou que não tive escolha, pois minha família parece que já usava mesas há séculos para as refeições. Verdade que o uso era muito seletivo, às vezes me parecia contraditório e múltiplo. Sim, a mesa de refeições servia para uma infinidade de coisas. Ali fazíamos tarefas diversas, como a construção de pipas nos meses de agosto, também chamado de “mês dos ventos”. Ali jogávamos jogos de tabuleiro, como torrinha, dama, gamão, etc. Algumas das minhas lembranças preferidas referem-se aos momentos em que tomávamos chá à noite, fazíamos planos para o futuro, falávamos dos estudos e dos livros lidos.

Nem tudo aconteceu de forma harmoniosa; se eu disser que sim, estaria mentindo. Foram muitos os desentendimentos e brigas iniciados ao redor da mesa. Por outro lado, muitas desavenças e litígios também terminaram ali. Ainda que algumas discussões não acabassem em pizza, muitas eram encerradas com lasanhas, tortas, deliciosas saladas e frágeis armistícios.

Se a sala de estar era o lugar onde meus pais recebiam as visitas mais formais, era ao redor da mesa de jantar que recebíamos os amigos e os parentes próximos. Mas a mesa tinha suas regras e, conforme me recordo, lugares marcados. Sim, havia uma hierarquia e disposições a serem cumpridas: meu pai ficava numa ponta e minha mãe no lado oposto, os filhos dispostos nas laterais. Eles não faziam questão de formalidades rígidas, mas em certas ocasiões éramos instruídos sobre como nos comportar em mesas alheias. Aliás, esse é o capítulo das maiores dificuldades, principalmente comer na ausência de uma mesa, segurando o prato com as mãos. Outro dia eu conto. Desejo a vocês mesa farta nas festas de fim de ano.

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