ARTICULISTAS

Tempos provisórios

Renato Muniz Barreto de Carvalho
Publicado em 26/10/2026 às 20:20
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Vamos? Pra onde? Não sei. Tanto faz. Você escolhe. Que tal um jantar? Eu gosto de lasanha, mas não vou lavar a louça. A métrica da poesia importa mais do que o conteúdo e, apesar disso, ela sobreviverá aos novos tempos. Tenho fé. A literatura está moribunda, é o que dizem. O que há nos dias atuais pode ser chamado de silêncio autoral? Fique à vontade para dar sua opinião.

Você está com aparência cansada. Algum problema no trabalho? Aquele colega idiota continua te assediando? Vamos ao cinema? Qualquer filme. São todos iguais. Quero um que não me dê sono. Detesto filmes tristes. Vai ser muito chato dormir e acordar só no final. Você prefere assistir a uma série? Tudo bem, assim eu durmo logo no início. Mais tarde, acordo e vamos nos encontrar. Sei que você vai querer ver todos os episódios. Amanhã, vou de ônibus para o trabalho.

O país está muito dividido ideologicamente, e isso nos deixa confusos, sem ação. Quem tem as respostas? Se não quiser conversar sobre isso, tudo bem. Você trocou aquela roupa que estava te apertando? E como fica a viagem com a família no fim do ano? Reservou a casa na praia? Também não gosto de política. Lavou a louça?

Vou ao oculista hoje. Não consigo enxergar as letras miudinhas. Essa consulta foi marcada há três meses. Um absurdo! É desagradável ter de pedir às pessoas para lerem os rótulos no supermercado. Você pagou a conta de luz? Tem chovido bastante — assunto fora de hora. Se continuar chovendo, vamos virar peixes ou sapos. Não sei onde deixei meu guarda-chuva. Mais um para a seção de achados e perdidos. Guarda-chuva devia vir com chip; dessa forma, não se perderia. Peguei um emprestado. Não me deixe esquecer. Escolhi um livro pra ler, um romance antigo. Pendurou a roupa no varal?

A TV pifou? Então, não vamos assistir ao fim da novela. Aqui, parece que nada funciona. Vamos jogar uma partida de xadrez? Baralho? Jogar pedrinhas no rio pra ver quem consegue fazer elas pularem mais vezes? Viu quem vai ser investigado? Falando nisso, você traz a marmita hoje, tá? Ah, não quero arroz nem feijão.

Não liga, não. Se você não entendeu nada até aqui, não é porque você é ignorante; é porque ainda não chegou a hora de entender. Tudo tem sua hora e sua vez. Um escritor português — acho que foi o… como é mesmo o nome dele? — já nos fez essa advertência. Falando nisso, pagou a conta de luz? Já te perguntei, né? Aliás, como dizia o Fernando Camões: “Tudo vale a alma se a pena não é pequena”. É mais ou menos assim, para um bom entendedor…

Esqueça essas citações pernósticas, não funcionam. Cada um com sua sina. Blein, blein, blein… Por quem os sinos dobram? Só pode ser pelos pobres de espírito. Salve! Salve!

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