ARTICULISTAS

Um paninho

Renato Muniz
Publicado em 09/12/2024 às 17:43
Compartilhar

Se você prestou atenção no título, deve ter visto o uso do artigo indefinido. Exatamente, pois o objeto em pauta é um simples paninho, de origem vaga, indeterminada. Se fosse “o paninho”, provavelmente “ele” teria alguma importância histórica, como os restos de alguma bandeira vilipendiada, as sobras do terno de um figurão, o lenço que enxugou as lágrimas da atriz emocionada com alguma homenagem recebida, e por aí afora. Teria importância artística ou cultural se fosse a relíquia de um traje usado no figurino de uma peça de Shakespeare encenada no século XVI; a página de um dos primeiros livros de pano para crianças, marcando um capítulo relevante na popularização dos livros; o que sobrou de uma flanela utilizada para limpar o pó da mesa de negociações numa guerra fratricida, sei lá! Não, o paninho do título é um reles fragmento. Nem sei por que merece destaque ou faz jus à nossa atenção.

Talvez ele tenha sido importante algum dia. Talvez tenha tido relevância no passado remoto. Fez parte das vestes de um político importante, do pijama de Dom Pedro, da cueca de um militar graduado que nunca lutou numa guerra? Vestiu uma madame ou veio da fraldinha de uma criança que depois viria a se tornar grande cientista? Vai saber! São meras especulações para nos distrair das notícias que nos incomodam na hora de dormir.

Qual foi sua trajetória até se tornar um naco de tecido obscuro? Que salões chiques frequentou? Que camas de alcovas ou motéis forrou? Que manchas absorveu após o gozo final? Quais corpos enxugou após banhos reparadores? Que suores de cinza e óleo limpou após jornadas extenuantes de trabalho? Que respingos de sangue acalmou após ferimentos graves terem sido perpetrados em lutas inúteis? Com certeza, foi perdendo pedaços, fios e linhas a cada embate, a cada batalha ou noite memorável de amor. Descaracterizou-se a cada encontro ou desencontro, choro ou alegre euforia, episódio de raiva, de ódio ou de desmensurado amor.

Ah, como faz falta um paninho na hora certa! Nos momentos marcantes de crises que exigem decisões precisas e em ocasiões que demandam ações enérgicas. Tem hora em que a indecisão de um artigo indefinido não resolve nada, mas, certamente, seria bom ter um paninho à disposição. Um paninho seco e um pouco de talco vão salvar um político prestes a fazer o discurso mais importante de sua vida logo depois que uma gota de gordura pingou na sua camisa. O paninho úmido é indispensável para atenuar o estrago feito por uma gota de vinho derramado no vestido de distinta senhora flagrada em local impróprio. E, com a ajuda do paninho, um gestor autoritário vai enxugar o suor das mãos antes de assinar um documento carregado de intenções ocultas. É nessas horas que podemos acompanhar o caminho feito pelo reles paninho até se salvar ou sumir para sempre.

Assuntos Relacionados
Compartilhar
Logotipo JM OnlineLogotipo JM Online

Nossos Apps

Redes Sociais

Razão Social

Rio Grande Artes Gráficas Ltda

CNPJ: 17.771.076/0001-83

Logotipo JM Magazine
Logotipo JM Online
Logotipo JM Online
Logotipo JM Rádio
Logotipo Editoria & Gráfica Vitória
JM Online© Copyright 2025Todos os direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por