ARTICULISTAS

Uma nova profissão

Renato Muniz B. Carvalho
Publicado em 11/05/2026 às 18:29
Compartilhar

Além de plano, o mundo está de cabeça para baixo. Para piorar, só falta acabar a eletricidade que mantém acesas as estrelas no céu, cada vez mais escuro e pesado sobre nossas cabeças. Ah, o céu, que já foi chamado de firmamento, essa coisa sólida, que antigamente era capaz de abrigar anjos e arcanjos, está desaparecendo sob o manto frio e impessoal da ciência, do mercado e da especulação imobiliária! Daqui a pouco, vão nos cobrar ingressos para observar os astros, a Lua, os eclipses, a luz do Sol. Tudo está revirado, confuso demais. Está difícil até de conversar sobre isso!

Claro que essa reviravolta, que agita os costumes, a natureza e a política, exige novos comportamentos, novas necessidades, novas ciências, novas explicações para a realidade e uma ideologia audaciosa. Tudo conforme a mais recente orientação global dos comportamentos na modernidade. Dizem que a astrologia vai virar ciência, com cátedra nas universidades! Pois é! Dei essa volta para contar que tenho um amigo que resolveu se dedicar a uma nova profissão: explicador de ironias. Vamos desejar sucesso ao rapaz e torcer para ele ir longe, ganhar dinheiro e conquistar a fama. Não é pouco para um jovem que está apenas começando sua vida profissional.

Pedi a ele que me explicasse no que consistia essa nova ocupação. Ele começou dizendo que era um problema cósmico ululante e caiu na gargalhada. Não me atrevi a perguntar que expressão era aquela, fiz cara de quem estava atento, ansioso pela continuidade da fala, e esperei, com educação e boa vontade, que ele continuasse. Depois de um longo silêncio, convidou-me para caminharmos pela cidade. Fomos!

Na primeira esquina, ele me chamou a atenção para a existência de várias farmácias ao longo do trajeto, quase uma em cada esquina. Olhou bem para mim, piscou discretamente e comentou: “nossa sociedade está doente e, ao invés de prevenção e qualidade de vida, decidimos investir em medicalização”. E emudeceu. Quando chegamos à avenida principal, ele parou diante de um painel que mostrava uma paisagem linda: um parque com árvores floridas, jardins, áreas verdes e crianças brincando. O trânsito na via era intenso e barulhento. Mais uma vez, foi certeiro e sucinto: “a sociedade deseja uma coisa e faz outra”. E calou-se. Depois de muito andar, sugeriu que fôssemos a uma confeitaria para tomar um café. Fomos!

Pedimos dois cafés e ficamos ali, encostados no balcão, observando o movimento. “Você já reparou nos rótulos da maioria dos produtos à venda?”, perguntou-me. “Hum, hum”, eu resmunguei, desconfiado. Quase todos falam de vida saudável, mostram fotos de crianças, de famílias felizes se alimentando. Pegou um produto qualquer e leu os ingredientes: muito açúcar, gordura, conservantes, corantes, etc. “Tudo muito saudável, não?”. Na hora de pagar, disse que não ia me cobrar pela aula, desde que eu pagasse a conta dele, e sorriu maroto.

Assuntos Relacionados
Compartilhar

Nossos Apps

Redes Sociais

Razão Social

Rio Grande Artes Gráficas Ltda

CNPJ: 17.771.076/0001-83

JM Online© Copyright 2026Todos os direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por