ARTICULISTAS

A apresentação

Tharsis Bastos
Publicado em 17/03/2026 às 18:27
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Na minha Uberaba de tantos anos atrás, era comum as pessoas aproveitarem o final de semana para curtir um bonito, comunitário e muito democrático “clube de campo” chamado Rio Claro. Um lugar em que a mãe natureza caprichou no estilo. Sob uma ponte, cortando a estrada, corria um veio de água cristalina com as margens gramadas, onde famílias inteiras, jovens e crianças, aproveitavam a vida em um bucolismo que está se tornando cada vez mais raro.

Numa dessas tardes, levados por nossa mãe, eu e minha irmã brincávamos na água refrescante quando ouvimos vários “pipocos” de arma de fogo. Momentos depois, vimos ao longe dois rapazes que vinham caminhando pelo gramado. Cada um arrastava pelos rabos dois imensos tamanduás-bandeira que foram abatidos, lá longe, a tiros de revólver.

Aos meus olhos de criança, a cena gerou um impacto profundo. Vestidos apenas de bermudas, torsos nus, estufados de orgulho e macheza, os rapazes vinham fazendo grande algazarra. Sorriam triunfalmente, ostentando suas presas. Mortos, arrastados pela grama, os dois bichos iam deixando filetes de sangue que se esvaíam de seus longos e finos bicos.

Como todos sabem, o forte dos tamanduás não é sua visão, mas o faro apuradíssimo e a habilidade invulgar de rastrear e deglutir formigas e cupins. Certamente, iludidos pelo vento contrário, o casal de tamanduás não pressentiu a aproximação dos atiradores, o que resultou no abate dos bichos. Foram mortos sem nenhuma condição de defesa e sem nenhuma explicação com fundamento lógico. Depois, arrastados pela grama, serviram de troféus a serem exibidos pelos dois rapazes, como exemplos de sua supremacia e habilidade.

Os bichos estavam por ali. Deram o azar de estar por ali. Caçavam suas formigas, batalhavam seu alimento. Cumpriam o desígnio bíblico de serem servidos através da obra e dos cuidados de nosso Criador, materializando os ensinamentos de Seu Filho, que disse certa vez, há dois milênios: “Observem as aves do céu; não semeiam, não colhem, nem armazenam em celeiros; contudo, o Pai celestial as alimenta”.

Eu não me lembro muito bem do final deste episódio, mas, certamente, após serem abatidos a tiros, arrastados em exposição como troféus de caça, o casal de tamanduás talvez tenha tido seus corpos abandonados por ali, num barranco qualquer, visto que nem mesmo para alimentação dos caçadores iriam servir.

E foi assim, naquela tarde distante de 1960, poucos meses antes de eu completar meus seis anos de vida, que o universo me apresentou formalmente – por inteiro – a porção escura e bestial deste prosaico conglomerado, por vezes profundamente ridículo, a que chamamos “humanidade”.

Tharsis Bastos

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