ARTICULISTAS

A lama dos textos

Tharsis Bastos
Publicado em 06/10/2026 às 17:45
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Quem faz da arte de escrever sua profissão está sujeito a reações e contrarreações de diversidades várias.

Já levei porrada de lulista por taxá-lo de predador administrativo, destrutor da economia brasileira e irresponsável civil. E já levei (muita) cacetada de bolsonarista apenas por expressar que vejo o Capitão como um imbecilóide metido a macho.

Sou jornalista, com registro e tudo mais, e escrever é minha profissão. Às vezes te emociono com o que escrevo. Às vezes posso te enfurecer. A mim, o que me importa é escrever o que penso e, acima de qualquer coisa, aquilo em que acredito. É aí que as coisas começam a complicar.

Por vezes – não raras – você me desaprova, porque os textos não saem “limpinhos”, tão a seu gosto. Muitos carregam aquela lama inconveniente que você não gosta, acha incômoda, não aceita, não deveria estar ali.

Quer um exemplo? neste ano de 2026 eu escrevi algo sobre os 30 anos do acidente na Serra da Cantareira que vitimou toda a banda Mamonas Assassinas e mais dois pilotos de um Learjet. Nem entrei fundo no assunto, como pretendia, mas...  – Tome porrada!

Vamos adentrar: Eu estava em casa, em 1996, vendo meu filho de seis anos dizendo que comer tatu é bom, porém dá dor nas costas, que é por isso que ele preferia comer as cabritas, porque as cabritas tem seios que alimentam seus descendentes... etc.

Essa aula explícita de zoofilia – que você deve julgar uma brincadeira inocente – se fosse, por exemplo, cantada pelo Padre Zezinho, continuaria sendo o que é – música. Mas teriam executado o padre!

Particularmente julgo um absurdo aquele tipo de música e embora não seja a favor de qualquer censura, creio que o jatinho enterrado na serra e pedaços de maxilar espalhados em árvores, deram um fim justo numa coisa que era absurda e sem controle. Resolveu!

Lama.... essa simples – e fatal – opinião é a lama que, ao final dos textos, sou obrigado a manter e nem tento limpar. Porque é desconfortável, porque “suja o brilho das vítimas”, deixa com pouco lustro o inegável talento melódico da banda.

Mas não me impede de dizer que julgo horrível você colocar uma geração inteira de brasileiros cantando idiotices como essa, que se arrasta por pintos de elefantes e outras.

Pensei, acredito e escrevi que aquele acidente foi uma solução para algo que eu não via saída. E ao me levantar então deste teclado, vejo os lixeiros da madrugada, os coveiros nos campos santos, os abutres nos galhos noturnos... E vou lavar as mãos, para dormir.

Mamonas são um pequeno exemplo. Todos os dias há lama para ser exposta. E para desagradar a tantos, que apreciam escritores de mãos limpas.

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