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O tio de todos

Tharsis Bastos
Publicado em 10/04/2026 às 10:38
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Vivaz, elétrico, pragmático, objetivo… Eu poderia passar horas tentando lembrar mais adjetivos que coubessem no retrato, mas nenhum deles daria conta, sozinho, do querido Tio Mário. Quando cheguei ao JM, com pouco mais de vinte anos e muito mais dúvidas do que certezas, foi ele, esse tsunami franzino, quem me mostrou, pela primeira vez, o peso e a beleza da palavra “personalidade”.

Tio Mário era daqueles que perguntavam por perguntar. Não esperava respostas: se a pergunta vinha, era porque a resposta já estava escolhida — a dele. E, ainda assim, havia algo de encantador nesse jeito tão próprio de existir, como se o mundo fosse sempre um diálogo interno que ele apenas deixava escapar em voz alta.

Lembro-me bem do dia em que decidiu levantar a biografia de um dos grandes nomes da Igreja Católica da época. Sem cerimônia, me escalou “voluntariamente” para acompanhá-lo em três semanas de entrevistas com Dom Alexandre Gonçalves do Amaral. Para mim, as noites no Palácio do Bispo começaram com gosto de tortura medieval. Mas Mário, e hoje eu tenho certeza disso, já sabia o que viria: a singularidade do velho Bispo, somada à curiosidade inquieta do jovem repórter, transformaria o suplício em fascínio. E transformou.

Foi dele também a ideia de me “empurrar”, como tarefa extra, a missão de levar para as reportagens a mais nova “foca” da Redação, uma recém-formada jornalista que, por acaso, era a única filha do poderoso patrão, Dr. Edson Prata. Eu, que achei que estava sendo punido, ganhei uma das amizades mais sólidas da minha vida: minha querida Lídia Prata. Anos depois, perguntei ao Tio Mário como ele deduzira que eu era o mais preparado para cumprir aquela missão. Ele nem piscou: “Você era o único repórter casado da Redação…”

E foi dele, ainda, uma das frases que mais me marcaram. No dia em que me despedi do JM para assumir o escritório da Globo em Uberaba, já imaginando que o jornalismo ficaria para trás, ele foi preciso como sempre: “Você pode até tentar sair do jornalismo, mas ele jamais sairá de você.” Hoje, tantas décadas depois, sei que ele estava certo.

Mário Salvador, meu querido Tio Mário, foi e continuará sendo um homem do bem. Um desses raros seres que deixam rastro, deixam marca, deixam luz. A vida fica menor sem ele, mas também fica maior por causa dele.

Até um dia.

 Tharsis Bastos

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