ARTICULISTAS

A unidade entre humano e sagrado na obra “O jardim das oliveiras”

Vânia Maria Resende
Publicado em 29/11/2025 às 11:12
Compartilhar

A epígrafe “As santas vulgaridades têm com certeza um anjo guardião”, que extraio de “O jardim das oliveiras”, de Adélia Prado, lançado em 2025, serve-me como referência para a leitura da obra. Entre tantas possibilidades, escolho o modo de ver, viver e se expressar com clarividência poética de Adélia, como artista da palavra, e de quem se situa no mundo com sensibilidade apurada. Sendo experiência substancialmente dúbia, a vida comporta o perfeito e o imperfeito, encantos e dores, dos planos espiritual e material. Como construção artística, a poesia supera a limitação pelo desvelamento da beleza, que a poeta considera maior que tudo, em poemas como “Mitigação da pena” (“O céu estrelado/ vale a dor do mundo”) e “Meditação à beira de um poema”, da obra “Oráculos de maio”.

A voz poética de Adélia Prado expressa o ser na existência em plena pulsação erótico-afetiva, animada pelo sagrado como toda a criação, porém, experimentando tanto a sombra de conflitos na conturbação íntima, como centelhas de iluminação, apaziguamento, prazer, ternura contemplativa. O título “O jardim das oliveiras” remete ao lugar descrito biblicamente, onde Jesus se recolheu para orar, à véspera da morte; aí, foi traído por Judas e levado à condenação. Viveu sozinho a agonia, pois os apóstolos dormiram, vencidos pela natureza frágil. Com valor poético na obra em questão é o espaço-tempo entre nascimento e morte, com inevitáveis inquietações.

A fragilidade dos apóstolos é a mesma que define a realidade dos seres humanos. Na unidade da matéria com o espírito coexistem os lados vulgar e elevado; indigno e nobre; grotesco e sóbrio. Entre nascer e morrer, todos estão sujeitos à miséria e à elevação; à solidão e ao abandono, sentimentos causados pela certeza de que é impossível passar procuração ao outro para ele viver a minha jornada.

No Romantismo houve identificação do poeta com o vate inspirado, arrebatado por uma força superior. Alçado a planos além do real, tomado pelo que o deixava fora de si, supostamente criar era gratuito, sem exigência do trabalho que a arte requer. Se a inspiração é entendida com abertura conceitual pode variar o seu dinamismo de acordo com a concepção estética e condições do processo criativo de cada artista. Entretanto, é impossível supor a criação de uma obra sem algum tipo de esforço, inclusive físico.

A poesia moderna explora o lirismo objetivo em aspectos ordinários do cotidiano. A de Adélia, singularmente, une o comum e o sublime, e na riqueza das ambivalências agrega o que dói, aflige e, na contrapartida, o que gratifica, consola, enleva, alegra. A epígrafe com a qual este artigo se inicia condensa a dualidade na imagem de um “anjo guardião” das “santas vulgaridades”. Sugere reentrâncias da inter-relação entre humano e sagrado, com mútua reverberação do que vibra no espírito e no corpo. Do que se conclui que é pela unidade que melhor se desfruta de preciosas banalidades.

Na duplicidade também não se antagonizam o grotesco e o sério, a tristeza e o humor; eles até compõem uma mesma cena, como esta: “[...] o bêbado entrou e falou ao finado/ – não antes de tirar o chapéu –/ ‘a morte é coisa muito importantíssima’./ Tomados de clarividência e susto,/ providenciaram o minuto de silêncio para o defunto/ e um café amargo para o bêbado” (poema “O velório”, obra “O jardim das oliveiras”). Imanência e transcendência se encontram onde insignificância e grandeza, céu e terra se tocam: “É permitido ser feliz, alegrar-se no pó,/ e toscamente prostrar-se/ à imensa luz do benfeitor invisível!” (poema “O moinho”, obra citada).

Na poética de Adélia identifica-se o que a poeta diz na obra “Bagagem”: “Que a fonte da vida é Deus,/ há infinitas maneiras de entender”. Uma pode ser o sopro do espírito na matéria, nos gestos vitais de tudo que existe, por menor que seja: “A borboleta, só de abrir e fechar as asas,/ está falando./ Não se faz poesia apenas com palavras” (poema “Solo”, obra “O jardim das oliveiras”). Outra é o espetáculo da vida, que é fugaz, mas se refaz e se reinaugura cíclica e infinitamente: “A luz arcaica,/ a que antes de tudo/ no coração da treva preexistia,/ é a iminente aurora/ que do topo do mundo/ o galo anuncia” (poema “O oráculo”, obra “A duração do dia”).

Participando do que a vida é e tem de belo, despretensioso, natural e sagrado, Adélia não a deixa escapar. Ao acolhê-la como matéria da sua poesia, dá-lhe, no burilamento da arte, duração e transcendência: “Poemas são culpas antecipadamente perdoadas./ Esta acácia florida gera angústia./ Para livrar-me, empenho-me/ em lhe esgotar a importuna beleza,/ magnífica insuficiência,/ pois, ainda que pobre,/ o poema convoca à perfeição” (poema “Acácia”, obra “O jardim das oliveiras”).    

 Vânia Maria Resende

Educadora, doutora em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa

Assuntos Relacionados
Compartilhar
Logotipo JM OnlineLogotipo JM Online

Nossos Apps

Redes Sociais

Razão Social

Rio Grande Artes Gráficas Ltda

CNPJ: 17.771.076/0001-83

Logotipo JM Magazine
Logotipo JM Online
Logotipo JM Online
Logotipo JM Rádio
Logotipo Editoria & Gráfica Vitória
JM Online© Copyright 2026Todos os direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por