A epígrafe “As santas vulgaridades têm com certeza um anjo guardião”, que extraio de “O jardim das oliveiras”, de Adélia Prado, lançado em 2025, serve-me como referência para a leitura da obra. Entre tantas possibilidades, escolho o modo de ver, viver e se expressar com clarividência poética de Adélia, como artista da palavra, e de quem se situa no mundo com sensibilidade apurada. Sendo experiência substancialmente dúbia, a vida comporta o perfeito e o imperfeito, encantos e dores, dos planos espiritual e material. Como construção artística, a poesia supera a limitação pelo desvelamento da beleza, que a poeta considera maior que tudo, em poemas como “Mitigação da pena” (“O céu estrelado/ vale a dor do mundo”) e “Meditação à beira de um poema”, da obra “Oráculos de maio”.
A voz poética de Adélia Prado expressa o ser na existência em plena pulsação erótico-afetiva, animada pelo sagrado como toda a criação, porém, experimentando tanto a sombra de conflitos na conturbação íntima, como centelhas de iluminação, apaziguamento, prazer, ternura contemplativa. O título “O jardim das oliveiras” remete ao lugar descrito biblicamente, onde Jesus se recolheu para orar, à véspera da morte; aí, foi traído por Judas e levado à condenação. Viveu sozinho a agonia, pois os apóstolos dormiram, vencidos pela natureza frágil. Com valor poético na obra em questão é o espaço-tempo entre nascimento e morte, com inevitáveis inquietações.
A fragilidade dos apóstolos é a mesma que define a realidade dos seres humanos. Na unidade da matéria com o espírito coexistem os lados vulgar e elevado; indigno e nobre; grotesco e sóbrio. Entre nascer e morrer, todos estão sujeitos à miséria e à elevação; à solidão e ao abandono, sentimentos causados pela certeza de que é impossível passar procuração ao outro para ele viver a minha jornada.
No Romantismo houve identificação do poeta com o vate inspirado, arrebatado por uma força superior. Alçado a planos além do real, tomado pelo que o deixava fora de si, supostamente criar era gratuito, sem exigência do trabalho que a arte requer. Se a inspiração é entendida com abertura conceitual pode variar o seu dinamismo de acordo com a concepção estética e condições do processo criativo de cada artista. Entretanto, é impossível supor a criação de uma obra sem algum tipo de esforço, inclusive físico.
A poesia moderna explora o lirismo objetivo em aspectos ordinários do cotidiano. A de Adélia, singularmente, une o comum e o sublime, e na riqueza das ambivalências agrega o que dói, aflige e, na contrapartida, o que gratifica, consola, enleva, alegra. A epígrafe com a qual este artigo se inicia condensa a dualidade na imagem de um “anjo guardião” das “santas vulgaridades”. Sugere reentrâncias da inter-relação entre humano e sagrado, com mútua reverberação do que vibra no espírito e no corpo. Do que se conclui que é pela unidade que melhor se desfruta de preciosas banalidades.
Na duplicidade também não se antagonizam o grotesco e o sério, a tristeza e o humor; eles até compõem uma mesma cena, como esta: “[...] o bêbado entrou e falou ao finado/ – não antes de tirar o chapéu –/ ‘a morte é coisa muito importantíssima’./ Tomados de clarividência e susto,/ providenciaram o minuto de silêncio para o defunto/ e um café amargo para o bêbado” (poema “O velório”, obra “O jardim das oliveiras”). Imanência e transcendência se encontram onde insignificância e grandeza, céu e terra se tocam: “É permitido ser feliz, alegrar-se no pó,/ e toscamente prostrar-se/ à imensa luz do benfeitor invisível!” (poema “O moinho”, obra citada).
Na poética de Adélia identifica-se o que a poeta diz na obra “Bagagem”: “Que a fonte da vida é Deus,/ há infinitas maneiras de entender”. Uma pode ser o sopro do espírito na matéria, nos gestos vitais de tudo que existe, por menor que seja: “A borboleta, só de abrir e fechar as asas,/ está falando./ Não se faz poesia apenas com palavras” (poema “Solo”, obra “O jardim das oliveiras”). Outra é o espetáculo da vida, que é fugaz, mas se refaz e se reinaugura cíclica e infinitamente: “A luz arcaica,/ a que antes de tudo/ no coração da treva preexistia,/ é a iminente aurora/ que do topo do mundo/ o galo anuncia” (poema “O oráculo”, obra “A duração do dia”).
Participando do que a vida é e tem de belo, despretensioso, natural e sagrado, Adélia não a deixa escapar. Ao acolhê-la como matéria da sua poesia, dá-lhe, no burilamento da arte, duração e transcendência: “Poemas são culpas antecipadamente perdoadas./ Esta acácia florida gera angústia./ Para livrar-me, empenho-me/ em lhe esgotar a importuna beleza,/ magnífica insuficiência,/ pois, ainda que pobre,/ o poema convoca à perfeição” (poema “Acácia”, obra “O jardim das oliveiras”).
Vânia Maria Resende
Educadora, doutora em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa