ARTICULISTAS

Atos de bondade

Vânia Maria Resende
Publicado em 13/05/2026 às 18:13
Compartilhar

Cada um tem a sua coleção especial de bondades, reunidas ao longo da vida. Nela, guarda gestos inesquecíveis que alguém lhe dirigiu, ou dirigiu a outrem, em experiência factual e em livro de biografia e ficção. Como não se apaixonar pelo gentil, empático e bondoso Jeremias, de Ziraldo? Suas histórias foram publicadas no Jornal do Brasil a partir de 65; depois, na revista O Cruzeiro, e em 2006 em “Jeremias, o Bom”. Em uma história desse livro, ele é o último da fila de espera, mas chega alguém e se coloca atrás quando uma voz diz “só um”, que seria ele, se não tivesse cedido o lugar.

É certo que quem é bondoso pode não ter só atitudes de bondade, mas tende a não ser narcisista. Por isso, sai de si, vê o outro (pessoas e tudo que é parte do cosmos) e age com humanismo no cuidado e no socorro quanto a necessidades alheias. Ser bom não é ser “bonzinho”; às vezes, uma negativa faz bem a quem a recebe. André Comte-Sponville reúne 18 virtudes no livro “Pequeno tratado das grandes virtudes”. Entre elas estão empatia e amor, não bondade; talvez por ela ter caráter transversal com relação a todas.

O valor legítimo da empatia produzida pela bondade é a gratuidade; as duas são virtudes na medida em que não implicam recompensa ou troca, como voto, lucro, afeto, elogio, reconhecimento. É interessante a reflexão de Jankélévitch, citada por Comte-Sponville, que condiciona compaixão a infortúnio e atribui mérito à caridade: “a piedade só ama o próximo se ele é lastimável, a comiseração só simpatiza com o outro se ele é miserando! Espontânea, ao contrário é a caridade” (obra citada, p. 121-122). Se empatia é sentir com o outro, deve sentir com ele também sua alegria e felicidade.

Bondade não existe sem amor; as duas são a essência da empatia. Juntas, talvez, justifiquem condutas admiráveis daqueles/as a que me reportarei. Todos são seres reais, mesmo sendo parte de histórias de livros. Em “Anarquistas, graças a Deus”, Zélia Gattai (esposa de Jorge Amado) recorda a infância nos anos 20 e a presença da mãe forte e sensível. Era protetora de animais, como do cabrito e da leitoa que ela não deixa serem mortos para refeição, e de um cachorro machucado por crianças. Apoiou a ajudante doméstica grávida antes do casamento. Levou para dentro de casa um velho na miséria; deu-lhe banho, roupa, comida. Ele reagiu chorando, dizendo a ela: “Vossa Senhoria é a mãe que nunca tive” (obra citada, p. 103).

No livro “Olhinhos de gato” (editado em revista entre 39-40; 1ª edição, pela Editora Moderna, 1980), Cecília Meireles revela a importância da avó que assumiu sua criação por causa da morte dos pais e lhe legou ricas memórias. Pequenas atitudes são lembradas pela escritora, como a avó ter se compadecido de uma galinha que foi encontrada agonizando, amarrada a uma panela, horas sem água e comida; ela a liberta, alimenta-a e a coloca na sombra para se recuperar e em seguida se juntar às suas galinhas.

Bondade e coragem excepcionais moveram Aracy de Carvalho (esposa de Guimarães Rosa), quando servia em Hamburgo, durante o nazismo, trabalhando no setor de passaporte ao lado do escritor, cônsul-adjunto. Na política restritiva à migração de judeus de Getúlio Vargas, clandestinamente e correndo riscos no auge da guerra, ela liberou vistos para judeus alemães, que tiveram a vida salva vindo para o Brasil. Tudo isso é narrado com detalhes no livro “Justa. Aracy de Carvalho e o resgate dos judeus: trocando a Alemanha nazista pelo Brasil” (2011), de Mônica Raisa Schpun.

Na convivência com a minha mãe, entendi que a bondade pode ser dada naturalmente como herança, ou também ser cultivada pela educação. Sempre ela olhava a foto paterna que mantinha sobre um móvel e dizia: “meu pai foi um homem tão bom!”. Entre vários outros atos de bondade, ela fazia roupas na máquina para os filhos pequenos de toda lavadeira que lavava a roupa da família semanalmente. Dona Benedita foi uma. Era de aparência rude, mas alma doce. Quando se aposentou, voltava sempre à nossa casa em visitas demoradas. Minha mãe retribuía, levando-lhe agrados; emocionada, ela chorava em um olho e só uma lágrima. Isso me intrigava.                  

Atos generosos de Jeremias e todos/as que figuram na minha coleção resultam do saber “outrar”. Esse verbo faz parte da relação de ensinamentos da professora no livro “Uma professora muito maluquinha”, de Ziraldo. Quem ensina outrar como essa educadora promove o desenvolvimento de seres humanos livres e seguros, que não olham só para o próprio umbigo. Sendo capazes de sentir com o outro, multiplicam o aprendizado de bondade.

 Vânia Maria Resende

Educadora, Doutora em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa

Assuntos Relacionados
Compartilhar
Logotipo JM OnlineLogotipo JM Online

Nossos Apps

Redes Sociais

Razão Social

Rio Grande Artes Gráficas Ltda

CNPJ: 17.771.076/0001-83

Logotipo JM Magazine
Logotipo JM Online
Logotipo JM Online
Logotipo JM Rádio
Logotipo Editoria & Gráfica Vitória
JM Online© Copyright 2026Todos os direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por