ARTICULISTAS

Bom humor e mau humor

Vânia Maria Resende
Publicado em 17/12/2025 às 18:24
Compartilhar

Conheci uma pessoa que abria o jornal e ia direto para convites de Missa de 7º dia para ver se tinha morrido conhecido. Repassava o que via ali até em encontro festivo; quando ela perguntava “sabem que fulano morreu?”, a conversa crescia: Morreu? De quê? Quem morreu também foi... Nossa, coitada! Não sabia. O que ela teve? Quando foi? A prosa seguia animada, com notícias lúgubres, e passava de animada a divertida, com alguém imitando o “mó-rreu” do humorista Nerso da Capitinga para cada debulhado a mais que partiu para uma vida melhor.   

Há situações de gafe, sem remendo ou desculpa. Como, em velório, dar parabéns, distraidamente, em lugar de pêsames, ao familiar do falecido. Os distraídos – incluo-me entre eles – sabem do que estou falando. O humor se associa à ruptura da normalidade, ao absurdo, ao avesso, e se manifesta de diferentes formas: ironia; acidez refinada; deboche grotesco; deformação da caricatura; graça ingênua (como era a do humor do grupo Os Trapalhões).

O humor ligado ao trágico está presente, por exemplo, em uma charge ácida de Ziraldo publicada no “Jornal do Brasil” durante o horror da ditadura militar no país. Um homem, atravessado por uma espada, resiste de pé, meio curvo; com a mão apoiada na parede e expressão de dor, diz: “Só dói quando eu rio” (compõe o livro “1964-1984 Vinte anos de prontidão”). Ainda tem quem nutra distopia sinistra da defesa da volta de regime antipatriótico, de censura, repressão, tortura, morte, desrespeito cívico e à liberdade.

O engraçado se associa ao estranho, à inversão da lógica e do esperado. Provoca riso o que é deslocado; é engraçado o que se apresenta fora de contexto, ou que se desvia do senso comum e da linha do razoável. É o caso de duas historietas de que me lembro. Quando perdi minha avó, estava reunida numa sala com minhas primas de idades próximas. Tristes, lembrávamos o que ela significava para nós. A prima mais nova da turma interrompeu a gravidade das lembranças, lamentando: “Ela gostava tanto da goiabeira!”. (Tinha uma goiabeira no quintal da casa da nossa avó).

Situação hilária vivida por Hebe Camargo foi contada por ela em uma entrevista ao Jô Soares. Um rapaz marcava presença semanal no programa de auditório da apresentadora na TV. No dia em que ele não compareceu, um assistente a informou de que a mãe desse fã tinha morrido. Hebe foi ao velório. Quando a viu chegar, surpreso, disse com indisfarçada empolgação: “Hebe, hoje é o dia mais feliz da minha vida!”.

Tratando-se do modo de pensar da loucura, o estranhamento tem nexos próprios que diferem do raciocínio padrão. Às vezes, o pensamento da criança e o do louco têm ponto em comum que são os liames fantásticos, incoerentes ou sem sentido, segundo a lógica ordinária. Na linguagem de ambos, ideias anticonvencionais ou às avessas são cômicas, como na seguinte piada que Ziraldo conta em “O livro do riso do menino maluquinho”: o Menino Maluquinho pescava com uma vara com linha, sem anzol; um médico passa, e os dois têm este diálogo: “– Tá fazendo o que aí, ô biruta? E o maluquinho: – Tou pescando, num tá vendo? – Peraí... Pescando sem anzol? – E daí? Aqui não tem peixe...”.

Circula nos meios digitais enxurrada de coisas grotescas, mas de mau gosto; inclusive, a deformação cai bem às fake news. O grotesco criativo como o da arte é saboroso, inteligente, com efeitos críticos destrutivos, deslavados como do clássico “Auto da Compadecida”, de Ariano Suassuna.   

Vale a pena prestar atenção nas coisas boas divulgadas na internet. Como a conversa entre o cientista Marcelo Gleiser e o filósofo e escritor Ailton Krenak. Circulou durante a pandemia e continua atual por causa de reflexões com sabedoria sobre os males da exploração do nosso planeta pelo modelo predatório industrial capitalista; movido por competição, não por colaboração, ele não dá sinal de mudança de rumo. Poluição, desastres, mortes, desequilíbrio climático decorrem sobretudo da oposição entre cultura e natureza criada pelo interesse antropocêntrico no poder, lucro, domínio.

Ailton viu mau humor em incêndio que acontecia à época no Pantanal, cujos reflexos chegavam até o Rio Grande do Sul. Aqui os efeitos se apresentaram na chuva negra de fuligem. Depois desse evento, vários outros de destruição ecológica vêm se sucedendo. Como se vê, não só pessoas têm mau humor por alguma frustração. A Terra, ofendida, também tem, e o expressa na ira e irritação com os maus-tratos do homem. O riso diante de forças, figuras, ideias ultrapassadas é combativo, traduz o ditado rir para não chorar, apropriado a negacionismo climático e sonho macabro com ditadura. O humor sombrio gera os desejos de quem reduz a vida a filme de terror.      

 Vânia Maria Resende

Educadora, Doutora em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa

Assuntos Relacionados
Compartilhar
Logotipo JM OnlineLogotipo JM Online

Nossos Apps

Redes Sociais

Razão Social

Rio Grande Artes Gráficas Ltda

CNPJ: 17.771.076/0001-83

Logotipo JM Magazine
Logotipo JM Online
Logotipo JM Online
Logotipo JM Rádio
Logotipo Editoria & Gráfica Vitória
JM Online© Copyright 2026Todos os direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por