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Brincar na infância e ser grande quando adulto

Vânia Maria Resende
Publicado em 04/08/2026 às 17:53
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Ser sério e brincar, como também vida produtiva e ócio, não são necessariamente antinomias. Há seriedade no ato de brincar (sonhar, imaginar, criar), o que faz bem também ao adulto. Brincar na infância e não ser adulto antes da hora são duas condições muito sérias. E devem ser levadas a sério por quem é responsável pela educação da criança.

Tem coisa que me deixa feliz, como o que vi em duas cenas distintas num só dia: crianças, acompanhando as mães, levavam grudado ao corpo um bichinho de brinquedo. O vínculo afetivo não permitiu que se separassem e ele ficasse em casa. Não é toda criança que vive de modo pleno a infância, sem prejuízo do brincar. Mais comum do que as duas cenas é ver crianças apegadas ao tablet ou celular. Os pais se gabam de dar esse objeto bem cedo ao/à filho/a, supondo que iniciá-lo/a precocemente nas novas tecnologias é o que há de melhor para o seu desenvolvimento. Outro interesse no uso do celular é a distração infantil que dá descanso ao adulto e o deixa livre para navegar tanto quanto a criança, às vezes juntos no mesmo espaço.    

O brincar é tão necessário na infância que crianças se transportam para uma realidade imaginada até em locais de guerra. Mesmo o mundo exterior vindo abaixo, elas têm forte impulso para experimentar aventuras fabulosas, ainda que isso seja transformar ludicamente, em outras coisas, restos bélicos, sobras dos bombardeios, escombros. Recentemente a programação mensal de filmes no Centro Cultural Cecília Palmério (coordenada por Sérgio Martins e seus parceiros na ação cultural) exibiu o comovente “Brinquedo proibido”.

O filme de 1952 traz questões universais da infância, necessidades de afeto e sonho nessa fase, que se mantêm essencialmente as mesmas em diferentes tempos e lugares. A menina Paulette perde os pais e o cachorrinho na guerra e é acolhida por uma família camponesa, em especial pelo menino Michel. Os dois cultivam laços profundos de cumplicidade pelo brincar, criando um cemitério particular secreto, onde enterram pequenos bichos mortos, e dedicam uma cruz especial a cada um. Essas vivências permeadas pela fertilidade da imaginação são libertadoras da experiência negativa das perdas da órfã, embora o desalento e a tristeza se repitam, quando tirada da família por policiais, para ser encaminhada a um orfanato.

Dar às crianças fantasia de qualidade é educá-las de maneira propícia a formação harmoniosa, saudável. Nem sempre o que é recreativo na internet nutre o pensamento mágico com efeitos profundos e duradouros, como faz a fantasia de bons livros para criança. Por ter valiosa função lúdica, devem estar entre os brinquedos, desde a fase de bebê. A forma da poesia brinca com sons, imagens, ritmo, espaços; ela representa fonte de atualidade das belas obras “A arca de Noé”, de Vinícius de Moraes e “Ou isto ou aquilo”, de Cecília Meireles. Conto de fada, com seus conteúdos mágicos, continua como leitura fundamental para criança a partir de 3 anos aproximadamente.

“Contos de fadas”, da editora Zahar, reúne histórias dos clássicos Charles Perrault, irmãos Grimm, Hans Christian Andersen. Sugeri este livro a Lucas, um pai dedicado e sensível, proprietário da papelaria onde vou com frequência. Iniciamos uma conversa sobre a importância dos livros, e daí ele me contou sobre o filho de três anos, o Luca, que se tem mostrado muito interessado em livros e histórias. Aline, a mãe, tão comprometida quanto o pai nos cuidados com o filho, está atendendo ao interesse da criança com aquisição de livros de qualidade. Montei uma relação com sugestões de livros para eles, incluindo histórias diversas e recontos de clássicos por escritoras abalizadas, como Ana Maria Machado e Ruth Rocha.  

Uma cena que Lucas me contou foi mais uma que me deixou feliz. Ele se assentou perto da cama do filho com um livro, na posição de leitura. O menino lhe perguntou o que ele estava fazendo; diante da resposta de que estava lendo, a criança pegou um livro seu e ficou na mesma posição do pai. Todo dia, Luca pede histórias e os pais contam e leem para ele, inclusive toda noite antes de ele dormir. Esse pequeno leitor questiona fatos das histórias, brinca de substituir personagem pela mãe, folheia livro sozinho, evidências de que o imaginário tem atuado na sua evolução. A imagem de pai e filho unidos com livro na mão revela que criança vê os pais como espelho, e a leitura compartilhada atesta que, na família de Luca, brincar é levado a sério na infância.

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