ARTICULISTAS

Cantiga de ninar para um gatinho cinza

Vânia Maria Resende
Publicado em 12/06/2026 às 18:35
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Um dia de chuva monótona e um pouco frio. Barulho forte do carro que passou displicente. Um motorista impassivo deixou para trás, no chão, um montinho de pelos cinza, encolhido e imóvel. Miados tristes, de dor e abandono do bichinho, que sempre andava por ali solitário, sem incomodar. Não pedia nada, como parte de sua majestosa dignidade felina. Passeava livre e lúdico, quando, pego de surpresa, foi jogado longe.

Maiara, dentro de casa, escutou o barulho e os miados de pedido de socorro. Foi ver o que era e encontrou perto da porta de saída o gato cinza, frágil, encostado na parede, jogado no canto. Pegou-o com delicadeza, para não ferir mais ainda o corpo alquebrado. Com a ajuda de Fred, levou-o de carro até a cidade mais próxima, aflita, em busca de um veterinário. Ajeitado no seu colo, sentia-lhe a respiração difícil. O gatinho se manteve sem forças, entregue, acolhido pelas mãos compassivas que acariciavam o seu pelo macio como se cantassem uma cantiga de ninar que o fizesse dormir.

Fim de tarde. Expedientes se encerrando. Barras de laranja no céu se apagando rapidamente. Era preciso chegar com o consultório veterinário ainda aberto. Carro acelerado. Maiara e Fred correm contra o tempo. São duas forças unidas pela proteção ao gato machucado. Percorrem o caminho de busca de algum alívio. Maiara o leva maternalmente no colo e Fred acelera ao máximo. Ouviram o gemido fraco, o último do pequeno gato cinza. Não foi possível... Morto, agora sem dor. Comovidos, eles choram.

No choro desta história real couberam todos os outros mortos, humanos e animais, os sofrimentos da vida, as ofensas à vida, descuido com o que pede socorro: o rio que seca; o ar poluído; o verde desmatado. Coube a solidão de idosos, o desamparo de crianças, bichos e todos os indefesos; a tristeza pela indiferença de certas pessoas, o seu descaso, o virar as costas aos que sofrem fome, frio, medo, opressão, tortura, e os males de guerras. Coube pesar pelas vítimas de violência familiar, física, moral, psiquiátrica, social, econômica, política, jurídica, religiosa, dentro de casa, em ruas, presídios, asilos, hospitais, escolas, templos, locais e relações de trabalho.    

No poema Canção de Outono, de tocante humanidade, Cecília Meireles tem por tema uma folha solitária que cai na fase outonal. Diante da desvalia da minúscula, porém não menos significativa vida vegetal, a poeta reconhece as faltas humanas: “Perdoa-me, folha seca,/ não posso cuidar de ti./ Vim para amar neste mundo,/ e até do amor me perdi. [...] E não pude levantá-la!/ Choro pelo que não fiz./ E pela minha fraqueza/ é que sou triste e infeliz”.

Os que seguem empaticamente, em sintonia universal, amam a vida, por isso, respeitam e cuidam. No denso romance “Sem despedidas” (edição brasileira, editora Todavia, 2025), a escritora sul-coreana Han Kang (vencedora do prêmio Nobel de Literatura de 2024) faz projeções de elaborada delicadeza estética da História e da experiência existencial. A personagem-narradora Kyung-ha enfrenta um percurso tenso em função da aparente insignificância de salvar o papagaio da grande amiga Inseon, hospitalizada longe de sua cidade natal. A trama entremeia à árdua viagem até a casa da amiga memórias trágicas de guerra. É pela ave, que a liga a essa amiga, que resiste: “No entanto, há o pássaro” (obra citada, p. 115). 

A leveza, atributo desse animal, e também de neve, nuvem, espuma, exploradas no romance, contrasta-se com o peso da gravidade dos horrores da guerra que transgridem a noção de senso humanitário. Uma cena narrada pela protagonista relembra o vínculo afetivo e de acolhimento mútuo entre ela e a ave de nome sugestivo: “Quando tentei, inadvertidamente, acariciar a nuca branca de Ama, que estava apoiada no meu ombro, ela abaixou ainda mais o pescoço e ficou parada, como se estivesse esperando” (idem, p. 117).

A gota d’água e a pluma se esvaem, como a vida – sempre vulnerável, mais ainda na guerra –, que se rompe de maneira banal em ataques brutais. Pessoas e tudo o mais são fios frágeis no jogo de vida-morte da insanidade bélica. O pacifista e o artista veem relevância na vida, por menor que seja. No romance em questão, enternecida pela morte do papagaio, não como perda pessoal, Kyung-ha chora, enquanto prepara o corpo para enterrá-lo: “Embrulho e ajeito o rosto do pássaro morto de novo. [...] Lágrimas ácidas e pegajosas surgem outra vez e se misturam ao meu ferimento. Não consigo entender. Ama não era meu pássaro. Nunca a amei para estar sentindo uma dor assim” (idem, p. 127). As grandes perdas, sobretudo humanas, afinam a sensibilidade para se lamentar também a condição única das pequenas.

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