ARTICULISTAS

Cartas, carteiros e as bem traçadas linhas

Vânia Maria Resende
Publicado em 13/02/2026 às 18:47
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Para o amigo Wellington dos Reis Silva (Ton)

        

A carta impressa no papel passou a ser raridade por causa dos meios digitais, mas o carteiro continua na rua, fazendo entregas, com ou sem crise dos Correios. Adultos e idosos de hoje já escreveram carta tradicional, usada no passado, com fim útil ou afetivo. O carteiro sempre foi bem-vindo, ansiosamente esperado, tanto quanto o que ele trazia na mochila. Tinha e ainda tem carteiro simpático, gentil, empático. Independente desse perfil, o trabalho dos carteiros, debaixo de sol e chuva, é admirável.

         O programa “Tô indo”, da TV Integração, do dia 31 de janeiro, retomou as trilhas do carteiro Jorge, de Ituiutaba, e mostrou o belo trabalho humano que ele realiza conciliado com o seu ofício de carteiro. Seguir seu itinerário me levou a escrever sobre o valor histórico, social, cultural, terapêutico de cartas e carteiros. A carta é um gênero que veicula não só conteúdo confidencial, amoroso; documenta segredos, revelações inéditas, fatos curiosos e peculiaridades de figuras importantes.

O escritor de gerações anteriores ao e-mail geralmente era grande e assíduo missivista (palavra de uso tão antigo quanto o da carta). No Brasil, dois escritores mineiros se destacaram na epistografia: Otto Lara Resende e Fernando Sabino. Em Bruxelas, em carta de 10/02/1958 para Fernando Sabino, Otto se declarou “um tagarela impenitente, atirado à carta compulsivamente”. Muitos livros reúnem correspondência de escritores. No Brasil, entre tantos: “O rio é tão longe: cartas a Fernando Sabino”, de Otto Lara Resende; “Fernando Sabino: cartas na mesa” (enviadas para os três amigos dos “Quatro Cavaleiros de um Íntimo Apocalipse”); “Mares interiores: correspondência de Murilo Rubião & Otto Lara Resende”.

O livro “Cartas de um jovem escritor: de Mário de Andrade a Fernando Sabino” (1981) é no estilo do livro estrangeiro “Cartas a um jovem poeta”, de Rilke (escritas entre 1903-1908, publicadas em 1929). Nas duas obras, o escritor iniciante troca cartas com o escritor maduro sobre a arte, a vida e o ofício literário. Nessas obras e em outras de escritores como Graciliano Ramos e Monteiro Lobato, as cartas têm importância tanto estética quanto histórica, social, cultural e política.           

Carteiros e cartas com suas histórias comporiam um livro inédito, com singularidades de assuntos, estilos, destinatários e remetentes, de contextos diversos. Como o bíblico, de apóstolos e suas epístolas para comunidades cristãs; de guerra; amor; amizade; prisão; relações parentais: de pai para filho (cartas de Joel Rufino dos Santos, na obra “Quando eu voltei, tive uma surpresa”, escritas quando estava preso na ditadura) e de filho para pai (“Carta a meu pai”, de Franz Kafka). No mercado estão disponíveis obras com material rico, como “Cartas extraordinárias”, de Shaun Usher, com mais de 125 cartas de Dostoiévski, Darwin, Einstein, Emily Dickinson, entre outros; e “Cartas brasileiras”, de figuras como Chico Buarque, Lampião, Santos Dumont, Clarice Lispector, Carlos Drummond, Olga Benário, Maysa...

Aproximo três carteiros pela visão sensível que têm da realidade. A encantadora personagem Mário, do livro “O carteiro e o poeta”, do escritor chileno Antonio Skármeta. Ele era carteiro exclusivo de Pablo Neruda; os dois se entendiam pela linguagem das metáforas e tinham sintonia poética.  

Ton Araxá publicou “Andanças”, identificando-se, na autoria, como carteiro e poeta. Nesse livro está presente o observador tocado pelo que vê nas ruas. Como ele diz: “Cada passo dado tem o seu motivo de deixar rastros”; “Continuo os passos/ Que simetricamente se encaixam/ Nas velhas pegadas existentes/ E sigo” (obra citada). Para o amigo Zé Antônio, da Rádio Imbiara, ele é o “mister” gentileza. Sonhador, criativo, de diálogo fácil. Foi visto assim pelo escritor Hermes Honório da Costa: “batia sempre em meu portão não apenas um carteiro levando cartas [...], mas era o carteiro-poeta ou o poeta-carteiro que queria sempre dizer a mim que a poesia é a energia vital que nos imortaliza e remédio para apagar os males e restaurar o amor” (idem).

O referido programa de TV refez os passos de Jorge, outro carteiro mineiro amável, generoso, que distribui cartas e livros. As cartas escritas por ele e voluntários levam mensagens a crianças hospitalizadas, com câncer, e criam laços com moradores do Lar dos Idosos. Os livros são doados pelo projeto Leia e passe adiante. Ele realiza esses projetos consciente de que a palavra ameniza a dor, alivia a solidão, desperta emoção, ânimo, esperança. Carteador é quem distribui cartas no jogo. Jorge faz do seu trabalho ponte para transportar o bem aos outros. No seu jogo a sorte é a favor de todos; ganham remetente, destinatário e ele próprio, o distribuidor das cartas.

 Vânia Maria Resende

Educadora, Doutora em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa

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