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Cecília Meireles e a unidade entre vida e poesia

Vânia Maria Resende
Publicado em 24/03/2026 às 18:15
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Já li em mais de uma fonte que o poema “Três orquídeas”, de Cecília Meireles, datado de agosto de 1964, foi o último que ela escreveu. Independente da confirmação desse dado, é fato que foi escrito quando a escritora estava internada com doença grave; sua morte ocorreu três meses depois. Ter escrito o poema nesse período atesta o quanto ela atingiu a unidade entre vida e poesia. No momento frágil, de doença, não perdeu a verve admirativa. Olhando as três orquídeas que recebeu de presente de D. Marcos Barbosa, e ficaram no seu quarto no hospital, foi tocada pela delicadeza das flores, o que a levou à escrita poética. Na edição de “Poesia completa”/2 vols. (2017) da autora, ele finaliza o vol. 2.   

No poema, a poeta manifesta o desejo de que aquelas flores fossem perenes: “As três orquídeas brancas eu sonharia que durassem,/ com sua nervura humana/ seu colorido de veludo”. A transitoriedade, tema constante de Cecília, nesse texto talvez tenha sinalizado a sua própria condição, com um alerta íntimo da proximidade da morte. Certamente a doença aguçou a sua consciência da temporalidade, justificando, pois, possível identificação com a impermanência das orquídeas: “dói-me a sua brevidade [...] e queria fazer o efêmero eterno”. Por isto, é impelida a escrever: “Durai, durai, flores [...] que escrevo para perdurardes em palavras” (“Poesia completa”, vol. 2).

Na poética ceciliana a efemeridade condiz com a linguagem do vago, fluido, volátil, tanto na composição dos versos quanto nos títulos de obras como “Mar absoluto”, “Vaga música”, “Viagem”, “O aeronauta”. Cecília cultiva o etéreo, o que é leve (mas denso) e sem fixidez. O movimento da natureza em geral é repertório recorrente na sua poesia, onde palavras como nuvem, água, vento são comuns, refletindo a contingência do que é irremediavelmente transitório. Contingência que transparece em detalhes do declínio da vitalidade: a cor se apagando na mudança de tom – roxo, lilás, branco – do manacá-de-cheiro, o desenho e a textura de uma folha se desfazendo, o caule das plantas pendendo sem firmeza.

Cecília funde no plano da sensorialidade o físico e o etéreo, podendo a eternidade ser inerente ao que passa e é cíclico, como este verso sugere: “Ah, o passageiro absoluto/ do eterno tempo!” (poema “Nove” de “O aeronauta”). Da vida breve, guardam-se registros, como sonho: “no território dos mitos,/ fica a memória/ mirando a forma ilusória/ dos precipícios/ da humana e mortal história” (poema “Oito” de “O aeronauta”).

A linguagem de Cecília tem a marca singular do refinamento lírico; com esse estilo, ela reveste de leveza a gravidade das questões inter-relacionadas de passagem do tempo/ vida fugaz/ morte. Finita é a situação humana e de toda a realidade material. Daí a preferência da poeta pelo que é límpido; incorpóreo, como a música e a sombra; o que corre, voa, e se esvai como areia, névoa, ar, bruma. O concreto ela transforma em “translúcido”, “diluído”, criando, por exemplo, “diáfanas balanças”, “aéreas escadas”. O refinamento define também o olhar sensível no alcance da sutileza de seres pequenos como grilo, abelha, formiga, lagartixa, pássaro, borboleta. O curto poema “Canção mínima” visualiza, com justeza verbal, o perfeito equilíbrio universal que nivela o ínfimo e a vastidão.

No poema “Elegia a uma pequena borboleta”, com fineza na expressão a poeta descreve um ser tênue: “criatura de pólen, de aragem,/ diáfana pétala da vida!”. E lamenta o descuido humano no trato da fragilidade desse ser minúsculo – de existência não menos misteriosa e precária que a do homem: “Choro esta humana insuficiência:/ – a confusão dos nossos olhos,/ – o selvagem peso do gesto,/ – cegueira – ignorância – remotos/ instintos súbitos – violências [...]” (“Obra poética”). Com tal fineza, a poeta penetra na essência da forma “miraculosa”, “divina” e, em sintonia, desvela: “teus olhos, dois grãos da noite/ de onde teu mistério surgia” (idem).

Os poemas para a borboleta e para as três orquídeas têm como matéria vida/morte, e o poema “Um”, da obra “O aeronauta”, revela uma compreensão serena da nova condição, sem mais forma terrena: “Agora podeis tratar-me/ como quiserdes:/ não sou feliz nem sou triste,/ humilde nem orgulhoso,/ – não sou terrestre.// Agora sei que este corpo,/ insuficiente, em que assiste/ remota fala,/ mui docemente se perde/ nos ares, como o segredo/ que a vida exala” (idem).

 Vânia Maria Resende

Educadora, doutora em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa

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