ARTICULISTAS

Colonizadores e colonizados

Vânia Maria Resende
Publicado em 13/01/2026 às 21:57
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Propaga-se que a democracia dos Estados Unidos é a maior e a mais sólida de todas. Numa incoerência gritante, seu presidente, em eventos graves recentes, arroga-se a condição de dono do mundo. Melhor dizendo, da parte do mundo com que se confronta com a certeza de sair ganhador. Covardia abominável, oportunismo escancarado e cinismo aviltante definem o comportamento deste que governa a dita maior potência e a maior democracia do planeta, ao se apoderar de um país em crise, enfraquecido, não aparelhado militarmente para uma disputa (que nem houve). O democrata de verdade não passa por cima de direitos humanos, não atropela soberania de outra nação nem leis internacionais e do seu próprio país, onde o Parlamento deve participar de decisões sobre invadir outros países.

Sem dificuldade e resistência, Trump arrombou um país e sequestrou o seu presidente. Nós, brasileiros, estamos vendo acontecer ao nosso lado um fato histórico deplorável, contestado por quem se pauta pelos valores dignidade e respeito. O representante do Brasil na ONU (em reunião do dia 6 de janeiro para tratar da posse da Venezuela por Trump) disse no seu discurso que é inaceitável que os fins justifiquem os meios. Esse apelo tem efeitos sobre quem tem compromisso com ética e princípios morais.

Esse não é o caso de Trump. Ele não age bem intencionado, a favor da paz e da libertação da Venezuela. Aproveita-se do conflito para se instalar na América Latina, tomando para si, por enquanto, parte do hemisfério, que, no todo, como ele acredita, diz respeito ao domínio norte-americano. O que se espera de um estadista confiável, republicano, humanista, é, de fato, não atropelar os meios a qualquer custo, para obter imediatamente, num salto velhaco, os resultados desejados. Foi assim que ele, um presidente desorientado apenas aparentemente, fez, demonstrando que sabe muito bem o que quer com sua política extremista.

Vladimir Safatle alerta em artigo sobre o abuso trumpista (https://aterraeredonda.com.br/o-sequestro-de-maduro-e-a-terceira-onda-colonial/): “Para quem imaginava que essa lógica abertamente colonialista e imperial havia ficado nos livros de história, o dia 3 de janeiro de 2026 está aí para desmentir. Pois o recente ataque dos EUA à Venezuela é apenas a coroação definitiva de uma nova época colonial, a terceira que se abre diante de nós, depois da “descoberta” das Américas e da ‘incursão civilizatória’ na África, com as velhas palavras grandiosas e cínicas de sempre”. E diz mais: “faz parte da história das práticas imperialistas escolher qual governo autoritário será apoiado e qual será destruído”. Essa é a prática de Trump.

Na terceira investida imperialista, no atual cenário mundial, cada potência – Estados Unidos, Rússia, China... – demarca a área territorial que quer tomar como sua. Não só causa repúdio a atitude de Trump, aberta e assumidamente colonialista com relação ao nosso continente, mas, também, o contrassenso da reação de parte de venezuelanos e de alguns presidentes latino-americanos que a endossam e comemoram. Outra reação nada louvável é o elogio da eficácia da operação que em minutos capturou Maduro e o levou para os Estados Unidos. Como não ser bem sucedido o uso da força bruta e armada do mais forte sobre o mais fraco? É infalível mesmo.

No Brasil, certas figuras políticas, radicais, fanáticos, analfabetos políticos, falsos patriotas supõem ter ganhos com a operação de Trump; um deles é que serão vitoriosos na eleição de 2026. Que ganho a invasão traz à América Latina se o poder está sendo exercido contra ela? Incrível é que quem acredita em ganho são defensores do patriotismo incongruente e da anistia, na contramão da democracia, num caminho aberto para a ditadura, sem que condenem estratégias arbitrárias, fraudulentas, manipuladoras, as que criticam em Maduro. Alguns colonizados dóceis, outros astutos, não enxergam humilhação a seu continente e ao povo vizinho, nem injustiça em crime arquitetado para ser julgado pela lei do colonizador para o seu benefício.

Como a arte não é conformista e ingênua, a obra-prima “Romanceiro da Inconfidência” é dica para diálogo sobre os riscos implicados nas arbitrariedades atuais. Cecília Meireles percorre na sua poesia lírica e épica o tempo obscuro e triste do regime tirânico colonial português, que impôs ao Brasil a dureza do jugo, exploração, opressão, degredo, morte.

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