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Desaparecidos

Vânia Maria Resende
Publicado em 28/04/2026 às 18:04
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Os desaparecidos não são todos iguais. Tem os voluntários, os involuntários e os que nem sabem do próprio desaparecimento, por algum fator como ingenuidade, amnésia, falta de condição psíquica, assassinato. Não só pessoas desaparecem. Quem nunca se sentiu aflito com o sumiço inexplicável de um objeto: agulha com linha, documento, papel com anotação útil, casaco, celular, chave, bolsa...? Triste é quando desaparece um animal de estimação e fica a dúvida se fugiu, foi roubado, atropelado, assassinado.

Maior ainda é a tristeza pela ocultação criminosa do corpo de um ser humano. O filme “Ainda estou aqui”, ganhador do Oscar 2025, remete à história de Rubens Paiva, morto e desaparecido, como outros considerados inimigos do regime ditatorial brasileiro de 64-85. Em “O agente secreto” (indicado a 4 categorias do Oscar 2026), uma “perna cabeluda” é metáfora enquanto lenda, e também metonímia do corpo de mortos consumidos pelo mesmo regime. Quanto a esse filme, o psicanalista Christian Dunker fez rica análise de “desaparecimentos”, associados à realidade de ontem e de hoje.

Não é raro o assassino desaparecer com o corpo, enterrá-lo longe, jogar em rio, poço. Desaparecimento ocorre ainda em queda de avião na água, na selva; em soterramento por desabamento; inundação; temporal. É doloroso não velar nem sepultar o corpo dignamente. Desaparecem pessoas de toda idade; às vezes, não se tem mais notícia do seu paradeiro. Como morador de rua e andarilho. Deixam família e perambulam por aí, ou em estradas como João Eurípedes Sabino mostra no livro “O andarilho: quem é ele?”. Houve tempo em que leproso e louco eram isolados, vistos como perigosos; grávida solteira era afastada da família por envergonhá-la.

É pungente ver criança desaparecer em mata, grande cidade e nunca mais ser encontrada, o que é frequente no Brasil. Muitas vezes, levada pela imaginação e impulso lúdico, perde a noção da realidade. Essa tragédia, que interrompe sonho e futuro, ocorreu recentemente com dois irmãos e o primo na zona rural de Bacabal-MA: saíram para brincar e só o primo foi localizado.

O conto “A terceira margem do rio”, de Guimarães Rosa, conta a história do homem que encomenda uma canoa e vai viver sozinho no rio, rompendo com o que viveu até aí. O filho, que é o narrador, carrega culpa não esclarecida; permanece nas imediações do rio e insiste em alcançar o pai, trazê-lo de volta, até concluir: “Sei que ninguém soube mais dele”.

Tipos desaparecidos de si mesmos estão ao nosso lado, viciados no “igual”, desligados do que surpreende, desautomatiza e faz pensar. Na obra “A expulsão do outro” (Ed. Vozes, 2025) o filósofo Byung-Chul Han afirma: “A conexão digital total e a comunicação total não facilitam o encontro com o outro”. Segundo ele, “a rede se transforma, hoje, em um campo de ressonância especial, em uma câmara de eco, da qual é eliminada toda alteridade, toda estranheza. A ressonância real pressupõe uma proximidade do outro”. Porque falta ao igual a “tensão dialética, surge um indiferente um ao lado do outro, uma massa vicejante do indistinguível” (páginas 10, 15 e 9).

Em espaço público, à espera de atendimento, pessoas uma ao lado da outra, alheadas do seu entorno, não se olham; não há escuta. A comunicação é virtual, não mais olhos nos olhos. A maioria foi capturada pelo lucro de empresas digitais. Viver é preterido pelo navegar compulsivo, sem a consciência profunda de si e da alteridade. Conexão digital não é relação humana presencial, nem com o diferente; em consequência, seres humanos desaparecidos uns dos outros. Outro dia, vi uma sala cheia, todos fixados no celular, desligados desta beleza exibida num documentário na TV:

Grandes árvores com florzinhas delicadas, pétalas caindo como chuva; o balanço leve dos galhos tocados pelo vento, raios do sol penetrando neles.

Sombras na água calma e translúcida.

A amplitude azul do céu.

Desenho de pintas miúdas de uma flor no solo, entre outras de vários tipos e cores; movimento lento de uma se abrindo.

Na imensidão do campo, o verde dançando com a brisa.

Abelhas e uma borboleta de visual exótico voando.

O percurso da lua luminosa em tomadas próximas e distantes.

Paisagens solares e noturnas, com efeitos de luz e sombra. Detalhes preciosos da vida natural.

Encantada, quis dizer alto “Que maravilha!”. Mas quem me ouviria?

 Vânia Maria Resende

Educadora, doutora em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa

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