O prazer experimentado tanto pelo executor quanto pelo expectador da maldade é sintoma de falta de saúde na unidade do ser humano como indivíduo e como grupo. Sentir satisfação com tortura de pessoa e animal é perversão. Quando se trata de crianças e jovens, maior ainda a gravidade, e requer atenção adulta, orientação educativa, socialização, terapia. A conversa deste artigo encerra um apelo para a Educação para a Paz. Ao implementá-la como projeto sistematizado, a escola deve visar estudantes, suas famílias e comunidade próxima. Conscientes da violência na qual os jovens estão mergulhados no mundo digital, em conjunto agirão para combatê-la.
O artigo “Atos de bondade” (Jornal da manhã, dia 14/5) destaca seres admiráveis pela empatia, enquanto este destaca o lado sombrio, feio e triste dos internautas, alienados no porão da plataforma Discord e de si mesmos. Fato que ilustra o que a educadora, psicóloga, filósofa Maria Inês Castanha de Queiroz diz em sua recente tese de doutorado (UFC): “as banalizações cotidianas concretizadas em atitudes desumanizadoras distorcem o sentido de ser do humano [...] desvirtuando o curso do ser humano que deve(ria) desdobrar-se no fluxo de força e realização – quiçá em beleza”.
Dados disponíveis na internet, similares aos apontados em entrevista a que assisti de uma delegada, informam que a Polícia Civil investiga o crescimento do zoossadismo (tortura e morte de animais) transmitido na referida plataforma. Indicam que toda madrugada entre 10 e 15 animais, sobretudo filhotes de gato, mas também pássaros e cachorros, são vítimas, contando com a adesão de assistência de 600 a 800 pessoas. Em torno de 90% dos participantes são adolescentes e jovens. O ganho é o status de líder por quem “melhor” executar a ação cruel: não só matando, mas produzindo muita dor, sangue, mutilação.
Costuma-se atribuir à juventude propensão a aventura e sonho acalentados pela potencialidade utópica. Pensamento e ação destrutivos podem provir também de curiosidade exploratória e fantasias obscuras e sádicas. Causas do sadismo (tratadas no meu artigo “Sadismo na infância?”, no Jornal da manhã) se situam no mundo pessoal complexo, conturbado por conflitos, carências, frustração, falta de limite, e privado do cultivo de virtudes.
É urgente que gestores e órgãos da Educação tenham em vista no seu plano pedagógico a Educação para a Paz. Disponho-me a compartilhar o modelo de uma proposta (contato: vaniamares2021@gmail.com) que sirva como ponto de partida de um trabalho coletivo amplo, com adaptações às realidades escolares de Uberaba. Não nos livramos ainda do rescaldo da Necropolítica que encontrou terreno no Brasil; na pandemia teve até dança com caixão festejando a morte. Condenar atos cruéis de líderes políticos alinhados a violência é parte de formação cívico-ética, humanitária, o que inclui valores, inclusive democráticos. Isso não é doutrinação ideológica.
Contra a influência desses líderes tóxicos, sem empatia e amor, que incentivam guerra, uso de arma, destruição, morte, genocídio, normalização do ódio, criança e jovem em formação devem conhecer e admirar a vida de líderes da paz, universais e locais. Em Uberaba, por exemplo, Dr. Humberto Ferreira, médico humano que segue na memória coletiva pelo que ele fazia para os necessitados; líderes religiosos como Juvenal Arduini e Chico Xavier; Dona Aparecida que fundou e trabalhou no Hospital do Pênfigo, e outros/as.
É muito importante o convívio dos jovens com a arte, a leitura literária e discussão de narrativas autobiográficas de vidas exemplares. Citemos “O cavalariço de Auschwitz”, história de superação do autor Henry Oster, cuja adolescência foi de sofrimento extremo em campo de concentração nazista. “O menino da lista de Schindler”, de Leon Leyson, narração da experiência semelhante do adolescente na 2ª guerra mundial. “No meu caminho” e outros de Malala, a jovem paquistanesa conta a violência sofrida devido à defesa do direito da mulher ir à escola, o que lhe deu o prêmio Nobel da Paz.
Diversão com o prazer de jovens à custa de dor e morte de um ser vivente é experimentação lúdica perversa, ausência de sentido humano e vazio existencial no seu interior. Séria carga negativa atua no psiquismo de quem despreza a vida, afirmando-se pela via da maldade. Como Maria Inês diz: “a desumanização age tal qual a poluição e degradação das águas que perdem as transparências e as potencialidades de saúde e nutrição da vida”.
Vânia Maria Resende
Educadora, Doutora em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa