ARTICULISTAS

Humanidade sem ilusão e idealismo

Vânia Maria Rezende
Publicado em 14/04/2026 às 07:52Atualizado em 14/04/2026 às 07:52
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No romance “A humanização” (2017, 2ª edição brasileira), de Valter Hugo Mãe, autor português contemporâneo, o leitor sente o prazer da fruição do texto e se inquieta, envolvendo-se no drama da família abatida pela morte de um de seus membros, a menina Sigridur, amada pelos pais e a irmã gêmea. A perturbação que afeta os seres ficcionais, a mesma que afeta os seres reais, evidencia a condição vulnerável e dúbia de humanidade, no seu intricado de humanização/desumanização. Bons e maus pensamentos, sentimentos e ações são inerentes ao “ser humano” e a “ser humanamente”.

Contradições são um campo de forças onde se atritam ideias, desejos, dúvida, ressentimento... no embate subjetivo, interpessoal e com a realidade. Quando se chega à síntese das diferenças, na contraposição de lados, o resultado é a transformação do pensamento e um pensar novo. Quanto a agressividade e frustração, se revertidas em energia criativa, produzem coisas boas para si e o mundo. Afetos expressam não só amorosidade, mas polos positivo e negativo: amor/ódio; bondade/maldade; doçura/azedume; autocontrole/alucinação; alegria/tristeza; coragem/medo; grandeza/ vileza.

Essa complexidade é balizadora de humanização ou desumanização na esfera pessoal, social, global, ecológica, em escolhas entre ética genuína ou enganosa; verdade ou mentira; civilidade ou barbárie; integração ou dissociação; colaboração ou competição; arejamento ou ignorância. No referido romance, contrastes implícitos ao sentido de humanidade, sujeita a subjetivação e a reificação do humano, são intensificados por influência do grave ponto de partida desestabilizador. Na literatura a fantasia cria desvios e distorções do real concreto, mas, também, associações subliminares.

Em “A humanização”, a morte da filha transtorna a mãe, bloqueia-lhe as pulsões de vida, tornando-a um ser violento, maligno na ação contra si mesma, a filha, os animais. Como gêmea, Halla passa a ser a outra parte morta, aprisionada na duplicidade com a irmã; aos 13 anos fica grávida, perde o filho, o que se soma como mais uma dor visceral. O sofrimento e a aridez do ambiente prejudicam a sua Infância e precipitam uma precocidade adulta. A trama, na qual seu papel é relevante, urde nós (uns se atam, outros se desatam); detalhes poéticos; pontos trágicos e cruéis; desconstrução de visões falsas, mistificações e preconceitos; desocultação de mistérios antigos; apegos, como o dos moradores ao seu pequeno mundo e à Islândia.

No tecido estético, tensões sociais, emocionais, mentais alimentam o desumano que se humaniza e o humano que se desumaniza, num correlato entre humanização/ desumanização. A corrosão desumanizadora aponta o seu lado inverso negado e se contrasta com lances de afirmação de vida. O conflito instalado com a morte provoca modos distintos de dor e luto: um destrutivo, com estagnação, rupturas, morte interna, desamor; outro construtivo, com elaborações enriquecedoras, libertação, expansão humana.

Em contextos reais, o modo destrutivo banaliza o mal e se mostra, sem compaixão e vergonha, na face mesquinha, perversa, fria, sombria dos humanos, em necropolíticas, fascismos, regimes totalitários, guerras. No horror sem limite da 2ª Guerra Mundial, o líder psicótico nazista pregou a superioridade da raça alemã e o extermínio do judeu, usado como bode expiatório, reduzido a objeto, ser inferior. Em defesa mórbida da supremacia da raça, manipulou propaganda falsa, religião, moral; promoveu o genocídio. Como não há reparação para essa tragédia, resta mantê-la viva na memória.

No romance em questão, Halla é a personagem que se constrói com a maior riqueza em termos de humanização, superando extremos de desumanização. Em meio à experiência opressiva de carregar a imagem da irmã morta, a limitação da vida no povoado e hostilidade e agressão da mãe, o alento é o vínculo amoroso com o pai. Figura calma, sensível, escreve poemas, lê livros e a leva a descobrir belezas e magia neles: “Andávamos como pessoas com luzes acesas dentro. As palavras como lâmpadas na boca. Iluminando tudo no interior da cabeça. [...] As palavras deixavam-nos mágicos. Eram os livros que traziam feitiço e punham tudo a ser outra coisa”.

Halla vai embora densa das contradições assimiladas. Deixa para trás o fogo aceso, que se alastra na casa onde dorme o casal que encarna vários aspectos de desumanização. Essa é cena de ficção, não tem sentido literal. É explosão simbolicamente libertadora, insurgente de Halla com relação ao seu próprio ser e ao contexto. Queima o que repudia e parte para vida nova.

 Vânia Maria Resende

Doutora em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa

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