ARTICULISTAS

Inteligência artificial a serviço do Homo sapiens

Vânia Maria Resende
Publicado em 04/03/2026 às 18:12
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A inteligência artificial é o boom do momento. Área cuja limiar da pesquisa remonta às décadas de 40-50, hoje segue em desenvolvimento acelerado. Desperta entusiasmo exagerado em uns, restrição em outros e perplexidade em quem ainda não entendeu bem se ela é programa, bricolagem de dados, projeto, tecnologia, pesquisa ou um pouco de tudo isso. Cresce a adesão a seu uso. Investimentos em pesquisas têm buscado atingir um nível sofisticado de IA, a “superinteligência artificial”. A IA atual é vista como recurso eficiente com poder para solução de problemas, com cálculos rápidos no acesso a informações aglutinadas, e já funciona em serviço bancário; mapa digital e conteúdos diversos disponíveis no Google; na área da saúde; em telecomunicação, produção de texto, e muito mais.

Cada invenção moderna faz surgir o medo do risco de que o inventor humano seja despersonalizado e substituído pela máquina como objeto físico e pelas possibilidades tecnológicas. Agora, o medo é de que a IA, produto da computação, criada pelo homem, acabe por sonegar o seu próprio criador. Vale lembrar que, para muita gente, é natural a imagem digital substituir a sua verdade real. Programa de Photoshop cria a ilusão, mostra a realidade ideal aos olhos de quem o utiliza; o ego enganado fica bem ajustado à sociedade do espetáculo e ao culto da eterna juventude.

Embora recursos virtuais visibilizem imagens ilusórias, a sensibilidade e a consciência crítica recusam a desumanização em dissociações, inconsistências, negações, artifícios e farsas às vezes até incompatíveis com a ética, ou alienantes. É importante a inteligência lúcida manter a guarda com relação à sedução irrefletida. Indivíduos criativos e sensíveis, artistas, por exemplo, não se valem do superpoder de computador, nem são levados por influência do que se impõe como regra; posicionam-se com filtro crítico.

O filme “Tempos modernos” (1936), de Chaplin, ironiza o comando mecânico da produção industrial. Possuído pelo ritmo autômato, irracional, o irreverente Carlitos não entra na engrenagem, cria o caos; sarcasticamente a arte usa o cômico para expor o ridículo. Cassiano Ricardo também ironiza o mito da máquina no poema “Ladainha”: “Por que levantar o braço/ para colher o fruto?/ A máquina o fará por nós/ [...] Por que pensar, imaginar?/ A máquina o fará por nós/ Por que fazer um poema/ A máquina o fará por nós// [...] Ó máquina, orai por nós” (obra “Jeremias sem-chorar”, 1964).

Miguel Nicolelis, neurocientista brasileiro com trabalho científico relevante, discorda da expressão Inteligência Artificial. Considera que a inteligência que a expressão anuncia não equivale à real, ou parte orgânica do corpo humano, nem é artificial, pois não funciona independente de dados provenientes da mente do homem. Ele aponta riscos desse programa como: o cérebro, que ganha potência quando desafiado e testado na sua capacidade latente de funcionamento, pode desenvolver atrofia, perda de habilidades básicas – domínio de vocabulário, raciocínio lógico – e complexa, que é a capacidade analítico-interpretativa. Acrescento mais: perda da coesão na expressão linguística em que a fragmentação rompe com elos ou conexões; falsidade de autoria quando alguém assina o texto gerado pela IA; perda, na produção textual, do estilo pessoal que conta com o sopro peculiar natural, quando emanado da fonte vital cognitiva, criativa, afetiva, espiritual.

No programa “Diálogos com Mario Sergio Conti”, da TV Globonews, de 28/11/25, o professor Glauco Arbix, coordenador da cátedra IA na USP, considerou a IA “uma tecnologia absolutamente transformadora” e que se deve trabalhar com ela com responsabilidade ética e sem julgamento determinista, pois está em curso, em aberto, não é nem o paraíso nem o inferno. Manifestou a expectativa de que ela tenha vindo como bem para a humanidade e o mercado de trabalho, e não para aumentar injustiças sociais.

No modo IA do Google, fiz mais de uma busca sobre este título do meu artigo “A primavera chega. Só porque é setembro” (fragmentos de textos de Cecília Meireles e Adélia Prado). O conteúdo objetivo das informações justapostas não alcança o sentido poético da linguagem nem densidade de raciocínio, como se vê: “a primavera no hemisfério sul não chega apenas porque é setembro, mas sim em uma data específica no final do mês”; “a frase ‘A Primavera chega. Só porque é setembro’ está parcialmente correta, pois setembro é o mês em que a primavera começa no Hemisfério Sul, mas a data exata de início varia”. O homem sapiens, no domínio pleno da sua inteligência, não pode ser engolido pelo Homo technicus; deve computar a IA como mais uma conquista sua para proveito da humanidade e do planeta.

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