Não é a primeira vez que escrevo sobre bem-te-vis. No artigo “A morte de um bem-te-vi” (Jornal da Manhã, 26/09/2013) contei sobre um de asas cortadas, preso em um quintal, sem poder voar. Cuidei dele, desejando salvá-lo. Tentei que comesse frutas, não aceitou. Viveu só um dia. Lamentei a sua morte, não por pieguice ou por não ter outra coisa – que uma pessoa prática diria “mais importante” – para cuidar. Lamentei a perversidade cometida com ele, tirando-lhe a liberdade e mutilando as asas, que lhe permitiam ir atrás do que comer. A toda hora, violência como essa e até pior é cometida contra animal, pessoas, a natureza, toda uma população em território em guerra, dentro de casa e em diversos espaços.
Moro numa região com bastante árvore, onde cantam muitos bem-te-vis. Além do episódio com um que acabei de relembrar, vivenciei outros em que desejei salvá-los, sem sucesso. Nas novas situações foram dois filhotes e um adulto. Esse, estranhamente machucado. Peguei-o do chão, caído de pernas para cima, por onde eu fazia caminhada à noitinha. Perdeu a coordenação, não ficava de pé, o corpo não se mantinha na posição normal. Como o encontrei assim, debaixo de árvores, deve ter caído de uma, ou algum gato da vizinhança o machucou. Pus remédio nas asas; tentava firmá-lo, em vão. Morreu durante a noite, no mesmo dia que o encontrei.
Um dos filhotes eu vi na árvore no meu passeio, ao sair de casa. Talvez não estivesse apto ainda para voar alto e tenha pousado em um galho de pouca altura. Quando voltei, procurei-o para ver o que podia fazer se ainda estivesse no mesmo lugar, não estava mais. Fiquei pesarosa, imaginando a possibilidade de ter sido comido por um dos gatos que circulam na rua. Em outra ocasião, encontrei um segundo filhote na escada de entrada da minha casa. Surpresa ao vê-lo ali, falei alguma coisa com ele e a resposta foi um “Te-vi” fraquinho, de cantor iniciante. Não era reação dócil à minha acolhida, talvez fosse de desapontamento com o que deu errado para ele. Levei-o para dentro e o alojei em um corredor, longe do meu gato.
O local era sem cobertura, dava acesso ao lado de fora. Os pais dele apareceram e aflitos começaram a rondar. Vinham com bichinhos no bico, ficavam no alto do poste em um fio, não desciam. Coloquei-o no muro externo do jardim, para ver se iria embora com os pais; não deu resultado. Como nas tentativas que fiz ele não comeu nada, levei-o na clínica Ezootics Vet para ser alimentado, o que foi feito por uma sonda minúscula. Não resistiu, morreu depois de dois dias internado.
As experiências que tive com o belo pássaro, cujo canto é expressão perfeita do seu nome, fez-me ter nas mãos o quanto é delicado viver. A condição vulnerável de quatro bem-te-vis me levou a refletir sobre a impotência para o controle sobre a vida. A ambivalência, linguagem que resguarda o caráter aberto da literatura, sustenta sentidos profundos também para as aparentes pequenas questões, triviais ou transcendentes. Uma é a realidade de todos os viventes (humanos ou não) de ser/ estar presente e de repente não ser/ não estar mais. A dubiedade que permeia resistência e fragilidade se manifesta no viver leve e no morrer silencioso dos pássaros. No romance “Sem despedidas” (Editora Todavia), de Han Kang, a personagem-narradora se recorda do que ouviu da mãe de sua grande amiga Inseon: “Não dá para confiar quando os pássaros parecem saudáveis, Kyung-ha. Eles se mantêm com a cabeça erguida e ficam no poleiro, e se caírem é porque já estão mortos” (p. 142).
Já acordei mais de uma vez, de manhãzinha, com o canto de algum bem-te-vi solitário, no entorno da minha casa. Curioso é que quando o dia começa a clarear os passarinhos são os primeiros a dar sinal de que já acordaram, num alvoroço de cantos diferentes simultâneos, mistura de sons variados, alguns exóticos. O canto de um único bem-te-vi que seja já enche os ares, é múltiplo, desdobrado na variação Bem-te-vi! Bem-bem-te-vi! Te-vi!
Quando sou despertada por um cantor desse sozinho, fico na escuta atenta, pensando naqueles bem-te-vis que não consegui salvar. Bem que poderia ser um deles, em passagem, como emanação sonora no ar, trazendo notícia de que continua vivo na energia sutil do seu canto. Alimentando uma ponta de mistério, respondo em silêncio, mentalmente: Bem-te-ouvi! Bem-bem-te-ouvi! Te-ouvi! Alentada pela certeza de que os que estiveram no meu caminho agora não têm penúria, fome, dor de asa quebrada, retomo o sono e durmo mais um pouco.
Vânia Maria Resende
Educadora, doutora em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa