É impressionante o potencial da natureza com poder de encantamento, nutrição, saúde, cura. O que é ornamental, comestível, medicinal e se origina de uma simples semente oferece uma riqueza de nutrientes, delícias e belezas, fonte de prazer e vida. Em sites de vendas especializadas se encontra variedade de sementes de plantas lindas e exóticas, interessantes; pequenas, grandes; floridas, coloridas, em diversas tonalidades. A descrição do produto embalado fornece informação específica, como do tipo: 100 gramas com aproximadamente 14.300 unidades. Pacote pequeno como esse guarda potência extraordinária. O que o seu peso mínimo contém basta para a germinação de uma infinidade de plantas que ocuparão muitos espaços no solo e, a depender da sua constituição morfológica, atingirão alturas, seguindo ciclos de reprodução de milhares de outras.
As sementes têm peculiaridades curiosas. Exemplo são as dos ipês-roxo, amarelo e branco: pequena variação entre elas é portadora de diferenças genéticas que distinguem as árvores. As das frutas compõem a identidade de cada uma e se diferenciam em quantidade, tamanho, formato, cor, textura, consistência, brilho. O mamão contém sementes incontáveis. As do ingá são protegidas pela vagem e envoltas pela parte branca consumível. Assim também são as do maracujá, envolvidas por cobertura suculenta, e as da romã que são lindos gominhos parecidos com vidros, cobertos pela polpa translúcida vermelha brilhante, agridoce. No caroço espinhoso da cajá-manga e do pequi, esconde-se uma só semente. Na manga, o embrião fica dentro do invólucro duro; dos caroços tanto dela quanto do abacate nascem árvores enormes, carregadas de frutos com centenas de mais caroços incubados.
Sementes minúsculas gestam árvores frondosas, com exuberância de folhas, flores, frutas em renovação cíclica. Fartura e prodígio explodem das sementes multiplicadas através dos tempos desde as origens. Esse processo infinito, inexplicável pela razão lógica, não escapa à percepção poética de Cecília Meireles e adélia Prado. Elas fazem referência à recorrência perene do nascimento. Cecília diz na crônica Índia florida: “a eternidade não está na corola, mas na semente”. Adélia poetiza: “Infinita vida que para continuar desaparece/ e toma outra forma e rebrota,/ árvore podada se abrindo,/ a raiz mergulhada em Deus” (poema Um bom motivo, obra “O coração disparado”). No poema Meditação à beira de um poema (obra “Oráculos de maio”), ela se maravilha “diante do recorrente milagre”, que é a floração da roseira podada: “Maravilhosas faziam-se/ as cíclicas perecíveis rosas”.
O esplendor da vida natural, manifestada na sua multiplicação silenciosa e incessante, é digno de contemplação e reverência. O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han se refere ao modo de ver a natureza pelos românticos, entre eles Novalis, filósofo e poeta do Romantismo alemão, observando: “não é antropomorfizada ou subjetivada. Antes, ela tem, ela mesma, uma interioridade, um ‘ânimo’ [...]. Apenas os poetas reconhecem a riqueza inesgotável de sua interioridade poética” (obra “Vita contemplativa”, Editora Vozes, 2023, p. 165). Também os que não são só observadores, e sim consubstanciados com a natureza entendem desse modo de ver, pois são parte da essência sutil e inexplicável, mas concreta e visível do todo.
Vânia Maria Resende
Educadora, doutora em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa