Há muito me incomoda a condição do jegue, sabendo que se instalou uma crise para a sobrevivência deste animal. Resiliente, laborioso, paciente, junto ao homem no trabalho desde o início da colonização no Brasil, adaptou-se sobretudo à cultura agrária. Dizem que é teimoso e empaca; quem sabe, em alguma situação, não seria reação a maus-tratos?
Cada espécie e cada animal em particular têm características próprias. A identificação de pessoas com animais se justifica pela herança biológica animal na constituição humana e por razões psíquicas. Talvez nessas estejam a causa mais forte de alguém ter afinidade com bicho de uma espécie, não de outra. Sempre compartilho a crônica “Simplesmente gatos...”, de Artur da Távola, com amantes de gato. O cronista rebate o preconceito sobre os felinos e aprofunda o motivo de atração por eles, seres lúdicos, discretos, reservados em cantos preferidos do seu espaço.
Na música que fez para o jegue, Luiz Gonzaga o considera “nosso irmão”, inspirado no companheirismo do animal na lida humana diária. De irmão, com o qual os humanos haviam contado sempre para tarefas duras, passou à subcondição de animal desprezado, até que a produção capitalista o tornou objeto de lucro. Funcionam frigoríficos especializados em jegue na Bahia, visando, evidentemente, os melhores resultados econômicos com venda da carne e da pele (com uso farmacêutico sem efeito científico comprovado), destinados também à exportação para países como a China.
Em 2007, vi no Maranhão cenas comoventes. Em viagem diária, a trabalho, entre Presidente Dutra e Joselândia, deparei-me com a desolação dos jeguinhos, caminhando solitários pela estrada. Cabisbaixos, seguiam, de manhã, não sei para onde e, no entardecer, faziam o caminho de volta. A mesma cena se repetia diariamente. Jegues perderam a serventia na vida moderna mecanizada, foram trocados por bicicleta, moto, carro e lançados à própria sorte.
Não negando a resistência da raça, os que caminhavam em grupo de uns oito apoiavam-se mutuamente. Seguiam cúmplices contra a realidade de desamparo e agruras que se abateu sobre eles. Cumpriam um ritual, levados pelo instinto de busca, na direção inalterável de luta pela vida. Nas ruas de Joselândia, vagava um jegue solitário, perdido como cachorro de rua e alvo de chacotas. Alimentava-se do que encontrava até no lixo, como saco de plástico. Observei o abandono com sentimento de culpa e desejo de salvá-lo (e também os jegues da estrada), sem poder fazer nada.
Não me convenço de que o abate é a solução para salvar os jegues. Salvar matando é uma ironia. Foram, sim, apropriados como matéria lucrativa, em vez de serem poupados e protegidos com soluções como uso em atividades terapêuticas, lúdicas, de montaria e no suporte a vários serviços em pequenas comunidades. A exploração para abate tem respaldo político, como o do deputado estadual Paulo Câmara que aprova a prática, levando em conta que tem base “em critérios técnicos, legais e econômicos”.
Matéria jornalística sobre o destino do jumento menciona a seguinte posição do pesquisador Pierre Escodro, professor de Medicina Veterinária da UFAL: “Mais de um milhão de animais foram abatidos entre 1996 e 2025, diminuindo o número de jumentos brasileiros de 1,37 milhão para pouco mais de 78 mil, uma redução de 94% [...]. Mantido o ritmo atual de abates, a espécie ‘não chegaria a 2030’ no Brasil” (https://g1.globo.com/meio-ambiente/noticia/2025/06/26/jumento-brasileiro-pode-entrar-em-extincao-ate-2030-com-abate-para-exportacao-para-china-alerta-pesquisador.ghtml).
O jegue (asno, jerico ou jumento) gera o burro e a mula, no cruzamento com a égua. Resistência, prudência, inteligência são transmitidas para os descendentes híbridos. A imagem mítico-espiritual do burro faz parte da vida de Jesus. É nele que a família sagrada foge para o Egito; depois, montado no jumentinho humilde, inverso ao cavalo bélico, Jesus faz a entrada triunfal em Jerusalém, sendo aclamado Rei não de Império terreno poderoso. Segundo as tradições, o burro levou Nossa Senhora grávida para Belém, e também, na manjedoura, o burro e o boi aqueceram o Menino com o hálito.
Desenhos populares e pinturas de arte fazem a representação lírica de Jesus conduzido pelo burrinho. No conto “O Burrinho Pedrês”, de Guimarães Rosa, o velho Sete-de-Ouros, protagonista, confirma a natureza resistente e prudente da sua raça. Ao seguir viagem, como montaria, enfrenta a tormenta de uma inundação, e é a calma que o salva. Em “Apologia ao jumento”, Luiz Gonzaga manifestou justa gratidão ao animal. Hoje, o artista teria que fazer versos sobre o triste destino, e talvez fim, desse animal, impotente rumo ao abatedouro, sob o poder do mercado que é maior que o da resistência.
Vânia Maria Resende
Educadora, Doutora em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa