ARTICULISTAS

Um jeito mambembe de ser, com canto e charango

Vânia Maria Resende
Publicado em 09/09/2026 às 19:54
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Num sábado pela manhã, por volta de 10 horas, quem esperava o verde no sinaleiro na esquina da rua Carlos Rodrigues da Cunha com a avenida Guilherme Ferreira, viu aparecer diante dos carros uma mulher de pequena estatura, cantando e tocando um instrumento parecido com cavaquinho. O motorista mais próximo da apresentação aplaudiu uma vez, num movimento tímido. Enquanto durou o sinal vermelho, ela andou entre os carros, passando o chapéu; pelo que vi, não ganhou nada. Seu tamanho, quase de uma criança, fez-me associá-la àquelas bonequinhas de caixinha de música.

No período de uma hora, fiz tudo o que tinha que fazer. Comprei e paguei alguma coisa em uma loja e resolvi voltar na esquina da cena inusitada, agora com dinheiro trocado e a intenção de dar àquela pequena artista. Como não a vi, deixei o carro por perto e contornei a pé dois quarteirões grandes, observando todos os semáforos, mas não a localizei. Abordei a recepcionista do campus da Uniube, que não tinha informação, apenas sugeriu o que eu tinha imaginado: a charanguista talvez tivesse parado para o almoço. Como o Mercado Municipal estava próximo, entrei, andei lá dentro, e na saída, supondo frustrada a busca, a vi indo embora.

Toquei-a de leve no ombro. Ela parou e me ouviu. Expliquei-me e fomos andando até o carro num bom diálogo. Ela se chama Nádia, tem 47 anos, é argentina, está em Uberaba há 4 meses, mora no bairro Abadia com o marido, Gustavo, de 50 anos, artesão (atualmente na função de pedreiro), e a filha Antu, de 12 anos. Veio da Província de Córdoba em andanças sem parada definitiva. O instrumento que toca é o charango, criado por indígenas dos Andes. Na sua cidade de origem, Mina Clavero, o casal faz trabalho artesanal em madeira. Talvez o próximo destino seja a Bahia, em dezembro.

A liberdade de ser mambembe requer coragem e resistência frente a riscos, imprevistos e condições precárias. A peça “O mambembe” (1904), de Artur Azevedo (em parceria com José Piza), tem elementos modernos, como crítica satírica grotesca e a representação dentro da representação. Isto é, o texto fala de si mesmo e de questões internas à arte teatral, define o gênero mambembe, cita seus precursores, entre eles Molière, mostra dificuldades da companhia nas viagens de apresentação e preconceito à classe de ator/atriz. Destaco esta fala da personagem Dona Rita: “Por isso, aquele crítico de Uberaba disse que o senhor tinha muita noz-vômica”. Essa é expressão deformada, pelo humor, de “vis comica”, corrigida pela personagem Frazão; a tradução – veia cômica – é registrada na nota de rodapé do texto.       

A atualidade de “O mambembe” motivou a sua montagem por um grupo de atrizes e atores profissionais brasileiros, com adaptação para “Os mambembes”, dirigida por Emílio de Mello e Gustavo Guenzburger; ficou em cartaz a partir de novembro de 2024. A trupe viajou por várias cidades do país. A encenação dessa comédia do início do século XX atesta o reconhecimento da importância do teatro mambembe, do autor e da peça na história da arte teatral do Brasil. Definida como burleta, é uma peça irreverente, retrata a cultura, a fala popular e a realidade social nacionais.

O nômade que sai da redoma para mambembear (palavra criada por Artur Azevedo na peça), por opção ou necessidade – de aventura; trabalho na arte dramática, musical ou circense; sobrevivência urgente fora da terra natal –, não tem conforto e segurança. Porém, a compensação é a riqueza de se lançar ao mundo, viver cada momento com surpresas e alegria de certas acolhidas.

A conversa com Nádia me mostrou que o que ela busca é sobreviver como imigrante itinerante, aventurar-se livremente, mais a cura para o que a afetou no corpo e no espírito (não revelou o que é, nem eu perguntei). Na medida em que entendi as razões da sua experiência mambembe na rua, eu a vi crescer como pessoa. Especialmente como mulher, que enfrenta, resiste, afirma-se, expondo-se e oferecendo, a quem para no sinal, a sua forma poética de ser, mesmo amadora, por meio do canto e do charango.

Vânia Maria Resende

Educadora, doutora em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa     

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