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Um sopro de ternura e alegria é consolo na loucura

Vânia Resende
Publicado em 05/11/2026 às 19:51
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“Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura”, escreve Guimarães Rosa em “Grande Sertão: Veredas” (Ed. José Olympio, 8. ed., p. 236), dando voz a Riobaldo, que narra suas memórias impregnadas de sabedoria, tendo experimentado agruras e ternuras na travessia épica da vida. Nas aventuras pelo sertão, esse protagonista viveu guerra e diferentes amores; o mais forte, dúbio e oculto foi o que sentiu por Diadorim, mulher que se passou por homem como jagunço. Assumiu pacto com o demo, embora não se negasse ao bem, e tinha fé: “minha Nossa Senhora ainda marque em meu favor. Deus me tenha!” (idem, p. 316). Sabia que “todo caminho da gente é resvaloso. Mas, também, cair não prejudica demais – a gente levanta, a gente sobe, a gente volta!” (idem, p. 237).

Enfrentou desafios, duelos, vingança, perdão, mortes. Assistiu uma mãe no nascimento do filho, um menino a mais que veio renovar o mundo. Experimentou o curso não racional dos caminhos cruzados, com contradições, inesperados, perdas, ganhos, bem e mal. Não perdeu de vista o frescor da poesia da vida: “Aí foi em fevereiro ou janeiro, no tempo do pendão do milho. Trêsmente: que com o capitão-do-campo de prateadas pontas, viçoso no cerrado; o aniz enfeitando suas moitas; e com florzinhas as dejaniras. Aquele capim-marmelada é muito restível, redobra logo na brotação, tão verde-mar, filho do menor chuvisco. De qualquer pano de mato, de de-entre quase cada encostar de duas folhas, saíam em giro as todas as cores de borboletas” (idem, p. 24).

         Muitas vezes Riobaldo se guiou por compaixão, até mesmo diante da fragilidade de quem esteve sob o seu julgamento. Numa cena de grande conflito, como aquela em que perdoou e não matou, foi levado por este princípio: “arejei que toda criatura merecia tarefa de viver, que aquele homem merecia viver por causa de uma grande beleza no mundo, à repentina” (idem, p. 357). Sentindo, como chefe, o dilema e a cobrança íntima de ser implacável, libertou esse homem com a condição que se impôs de matar o próximo que aparecesse; mas não matou esse também, nem sua égua e sua cachorrinha, cogitadas para serem sacrificadas no seu lugar. Comoveu-se com a agonia de cavalos abatidos em tiroteio. Expressou uma face religiosa: “se tem alma, e tem, ela é de Deus estabelecida, nem que a pessoa queira ou não queira. Não é vendível” (idem, p. 22).

            Um jagunço se recusar a matar, com pena de pessoas e animais, revela, nas páginas de uma grande obra da literatura, que tudo cabe na vida e dentro das pessoas, tanto de bom quanto de ruim. No curto tempo de uns 40 dias desde o início de junho, numa quadra apenas da minha rua, entre umas dez casas, morreram três moradores entre 40 e 60 anos que não estavam doentes. De repente, a surpresa e a tragédia: tombo de uma escada; infarto fulminante; um câncer rápido arrasador. Já em lugares distantes todo tipo de coisa acontecia: copa do mundo, uns perdendo, outros ganhando; guerras, conflitos, festas... A tristeza que bateu nas portas do meu quarteirão não foi só pelas mortes humanas. Dois filhotes de gatos nascidos nesse pedaço, do qual se sentiam donos e o alegravam com travessuras infantis, também desapareceram num piscar de olhos. A fêmea meiga, branca de rabo preto, foi atropelada por um carro. O machinho branco levado, subidor de árvores para se esquivar de qualquer ameaça ou para brincar, foi surpreendido, quando subiu em um limoeiro.

O gatinho esperto, brincalhão, aventureiro foi arrastado pelo acontecimento traiçoeiro, talvez por ingenuidade ou na defesa de algum perigo. Numa manhãzinha, ficou preso nos espinhos de um pé de limão; quanto mais tentava sair mais se complicava. Michele, uma moradora, ouviu os miados e teve a bondade de socorrê-lo. Com dificuldade, conseguiu tirá-lo dali e o levou para a sua casa. Chamou um veterinário para atendê-lo. Ela e a mãe, dona Aparecida (um ser doce, acolhedor, que ama bichos e reza para que não sofram quando estão doentes), cuidaram dele. Com anemia, enfraquecido, o bichinho resistiu só uma semana. O amor puro e suave das duas é um sopro de alívio e conforto juntos; é bálsamo e alegria, conforme este entendimento de Riobaldo: “somente com a alegria é que a gente realiza bem – mesmo até as tristes ações” (idem, p. 316).

A ternura é consolo na loucura e um clarão de luz até nas lutas perdidas, como a do gatinho e tantas outras humanas. Quanto às lutas ganhas, a alegria é brinde, como foi para as recentes, de outubro, nas ruas brasileiras. No caminhar histórico único, jovens, idosos, pessoas de toda idade, juntos, foram decisivos a favor da causa da liberdade, da natureza, de livro contra fuzil e bala, da civilidade, de direitos, inclusive à educação. Entre o desatino e a vitória, ternura e alegria são um pouco de saúde; trazem bonança e breve descanso, já que viver cobra resistência aos riscos sempre.

     

Vânia Maria Resende

Educadora, Doutora em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa

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