Mergulhado no feriado que diminuiu o tamanho da semana, o brasileiro foi surpreendido pelo repórter que fez a pergunta muito rapidamente: o que se comemora hoje, 15 de novembro, como uma data merecedora de tanta reverência? As respostas variaram de “descobrimento do Brasil” até “não faço a menor ideia”! Aqueles que conseguiram acertar o motivo da paralisação obrigatória, isto é, responderam “Proclamação da República”, não tinham qualquer explicação para o fato.
Feita a constatação, me veio à memória o cotidiano uso, por pessoas que estão julgando alguma atitude considerada por elas fora dos padrões aceitáveis, de uma expressão que pode ser reproduzida mais ou menos assim: “ah, essa foi uma atitude nada republicana”!
Para nós, brasileiros, em 1889, pouco tempo depois da Abolição, assistimos, num ambiente chamado de “porre ideológico”, o fim do regime monárquico e o início da República. As ideias e os temas republicanos pareciam destruir a monotonia da ordem imperial bem como o imoral sistema de privilégios sobre o qual se manteve, além de depender da escravidão para se sustentar.
No terreno da economia, os projetos grandiosos da República não sabiam muito bem aonde chegariam. Mas, o empreendedorismo criativo ampliava-se de forma acelerada talvez por ter sido reprimido por impedimentos institucionais de várias ordens no período do Império. Os feitos da República continuaram ousados e extravagantes ao atravessarem o país de estradas de ferro e criarem indústrias que proliferaram em várias partes do Brasil com o intuito de substituir as importações pela indústria nacional.
Mesmo entre aqueles que defenderam as mudanças que vieram com a jovem República, ainda que de forma moderada, não concordavam com todas as ações que fecundavam a nação brasileira. Segundo alguns, um novo país que emerge das ruínas do velho, traz ainda consigo problemas com a tradição, com o passado e com as próprias ruínas. É preciso que haja solução para as pessoas que não foram beneficiadas com esse admirável mundo novo.
Eu já disse isso noutro texto, mas tenho que repetir que quando se trata de Brasil, os problemas são os mesmos ao longo da História, só mudam os personagens. As imoralidades do período imperial pareciam mais contidas que os escândalos que agora gritavam das janelas do espírito do capitalismo republicano nascente. As finanças públicas evoluíam lentamente devido a tensões entre o público e o privado. É quase impossível não fazer uma leitura filosófica daquele período. Havia uma falta de valores fundamentais não só na área econômica e da moral, como havia noutras também.
O enredo deste texto trata de uma longa aventura que começa sei lá onde e continua pelos dias atuais. Nada parece ter mudado; melhor dizendo, segundo o escritor mineiro Fernando Sabino, os politiquilhos continuam a sua desenfreada e ridícula guerra para obterem as suas melhores fatias do bolo, lhes falta a ética. Já “a populaça representa o caos amotinado, o marasmo agonizante em que está mergulhada a nação, e de onde, custe o que custar, haveremos de arrancá-la”. Trata-se não apenas de um texto, mas de uma verdade escancarada sobre o que significa para nós de 2017, a comemoração do dia da Proclamação da República. O desafio é imenso.
Por último, não vamos subtrair da República a sua maior virtude: possibilitar que a democracia seja o regime político sob as cores do arco-íris em todos os estados da Federação republicana.
Parece que temos andado muito mal. A liberdade que nos é garantida pelos poderes republicanos não é acompanhada pela garantia do legítimo princípio da propriedade.
Atitudes republicanas são ainda promessas...
(*) Profa. Solange de Melo M N Borges, solange.borges@netsite.com.br – economista, pós graduada pela PUC e IBMEC.