ARTICULISTAS

Augusto, o injustiçado

Tinha o coração muito bom, boa índole desde a infância. Não sabia desejar mal aos outros

Ricardo Cavalcante Motta
Publicado em 12/05/2018 às 08:23Atualizado em 16/12/2022 às 04:14
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Tinha o coração muito bom, boa índole desde a infância. Não sabia desejar mal aos outros, mas tinha uma característica marcante, sentia-se absoluto, correto em tudo, dono da razão e da verdade. Por isso ganhou o apelido de Augusto, mas era medíocre. Sempre tinha que dar a última palavra, mesmo que sua inteligência não tivesse alcance para tal. Girava a mente até furtar como sua alguma conclusão alheia, ou ficava à espreita para, subitamente, em tom austero, apontar alguma falha de outrem, parecendo superior. Nisto Augusto não falhava. Para todo infortúnio pessoal criava uma culpa externa, jamais decorria de erro próprio. Nota ruim, o professor perseguiu...

Ao fim de um namoro, sentia absurda a insensibilidade do par que não soube ver em si suas ímpares qualidades e dedicação. Vivia em grave confronto com Deus, a quem absorveu por transmissão de protocolo familiar. Afinal, não entendia como Deus podia ser tão injusto e fazia coisas que não condiziam com a sua subjetiva lógica do ideal. Assim, Augusto ia protegendo-se para se resguardar, no fundo, do seu receio de aparecerem suas imperfeições, ocultando, na verdade, a sua covardia pelo medo do infortúnio pessoal. Para facilitar sua meta do certo singelo, assumiu até um voto de pobreza, que em nada se aproximava do voto franciscano. Mero comodismo. Um escudo para se justificar pelo fluir do sucesso dos colegas. Preferia conviver com pessoas fragilizadas para se sobrepor. Também gostava de diminuir os próximos com potencial de êxito, temeroso de que brilhassem perto de si. Enfim, tudo que não conquistava era culpa do azar, ou da indiferença do tal Deus injusto que não sabia reconhecer seu valor. Certo dia foi acometido por doença grave. Então ficou mesmo conflitado com Deus. Pensava que havia tanta gente ruim e Deus foi destinar logo para si aquela cruel enfermidade. Pessoa boa, responsável, honesta, pura. Absurdo. Injustiça total. Sua mãe fez promessa e coincidentemente curou-se. Por isso, ela pediu para orar a Deus. Contrariado, Augusto acatou. Foi ao templo, olhou para o altar e disse a Deus: "Enfim consertou sua injustiça, está perdoado! Amém!". Assim seguiu sua vida, sempre certo. Terminou numa solidão indireta, injustiçado, mas, pelo menos certo; era como se que sentia.

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