Thiago Sorrisão já atuou em Brumadinho, enchentes e incêndios e afirma que pretende voltar ao Rio Grande do Sul para ajudar nas áreas mais atingidas
O alerta emitido pela Defesa Civil do Rio Grande do Sul nesta quarta-feira (23) para o risco de colapso da Barragem Arroio São Luiz, em São Marcos, fez o uberabense Thiago Alves Pereira, conhecido como Thiago Sorrisão, começar a se preparar para mais uma missão humanitária. Bombeiro civil, instrutor de brigadistas e voluntário em áreas de desastre, ele afirma que pretende ir novamente ao Estado para atuar onde a situação for mais grave.
(Foto/Reprodução)
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A Defesa Civil informou que equipes técnicas identificaram trincas com vazamentos em partes da estrutura da barragem e que cerca de 60 edificações localizadas em áreas potencialmente atingidas começaram a ser evacuadas preventivamente. Um alerta severo também foi enviado por Cell Broadcast aos moradores da região.
Thiago conta que tomou conhecimento da situação por meio da própria Defesa Civil e de moradores das cidades afetadas. Segundo ele, a decisão de se colocar à disposição para ajudar é consequência de uma trajetória iniciada no trabalho social e que, ao longo dos anos, o levou para áreas de risco. “Toda minha vida foi ajudando. Comecei no social e fui me graduando para ações de risco onde ninguém quer estar, daí a necessidade”, afirma.
Ele diz que a viagem ao Rio Grande do Sul ainda está em preparação, mas que a decisão de ir já está tomada. Desde 2011, segundo Thiago, ele recebe convocações formais e informais para atuar em situações de emergência. Nas missões, afirma que costuma procurar justamente os locais mais atingidos, com maior número de desabrigados, desaparecidos ou mortos.
A experiência acumulada, no entanto, não significa que o trabalho tenha se tornado emocionalmente simples. Thiago relata que aprendeu a criar uma espécie de “normalidade” durante as operações para conseguir se concentrar no salvamento. Depois, quando retorna e deixa a rotina de emergência, as lembranças permanecem.
“Eu tenho que pensar que estou ali para salvar e não para me lamentar e nem ouvir lamentos. Porém, como não sou uma máquina, quando chego da missão e coloco a cabeça no travesseiro, vem a depressão e os estresses. Principalmente o estresse pós-traumático”, conta.
Entre as situações que permanecem na memória estão a atuação em Brumadinho, em 2019, quando participou do resgate de sete corpos, e uma operação de combate a incêndios no Pantanal, onde quase foi morto por um jacaré. Em outra ocasião, participou do resgate de uma onça que teve o corpo e as patas queimados pelo fogo.
As experiências também mudaram a forma como ele encara o trabalho. Para Thiago, um dos principais aprendizados foi o companheirismo entre as pessoas que atuam nas chamadas “zonas quentes” das operações. “Onde todos se ajudam para ajudar quem está necessitando”, resume.
A possibilidade de novamente entrar em uma área de desastre também é compartilhada pela família. Thiago afirma que os pais, o irmão e o filho sabem dos riscos envolvidos e que todos têm consciência de que uma missão pode terminar de forma diferente do planejado. “Eu posso virar uma vítima”, diz.
Ao longo dos anos, ele participou de operações relacionadas a rompimentos de barragens em Mariana e Brumadinho, incêndios florestais em diferentes biomas brasileiros, deslizamentos e soterramentos em cidades de Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e Pernambuco, além de missões internacionais após tsunami em Moçambique e terremotos no Haiti e na Venezuela. Também atuou em inundações no Rio Grande do Sul, Acre, Pará, Amazonas, Paraná e Santa Catarina.
Natural de Uberaba, Thiago faz questão de destacar que as missões não são uma profissão remunerada. Segundo ele, nunca recebeu pagamento para atuar nessas situações e, muitas vezes, utiliza recursos próprios e conta com a ajuda de amigos e colegas que acompanham seu trabalho.
“É altruísmo, ativismo, humanitarismo e filantropia”, define.
Caso a nova missão seja confirmada, Thiago diz que não enxerga o retorno ao Rio Grande do Sul como algo extraordinário, mas como consequência da escolha que fez ao longo da vida. “Não passa da minha obrigação de estar ajudando aos que mais necessitam, já que me dediquei para isso”, afirma.
Aos moradores de Uberaba que acompanham ou ajudam de alguma forma, ele agradece pelo apoio. “Só tenho a agradecer o apoio espiritual, aos que querem ir mas não conseguem e acabam fazendo doações financeiras como se estivessem representando-as”, diz.
Para Thiago, estar em uma região atingida por uma grande inundação é uma experiência que dificilmente pode ser compreendida à distância. “Espero que muitos consigam ajudar em uma missão humanitária, estar em área afetada e vivenciar o que é uma inundação de 10 a 15 metros de profundidade”, finaliza.