Entidade afirma que aumento de R$ 100 por pessoa previsto em novo edital não foi suficiente para viabilizar continuidade do serviço em Uberaba
Com as atividades de acolhimento encerradas desde março, a Casa Dia atribui à insuficiência dos recursos disponíveis a decisão de não continuar prestando o serviço destinado a adultos em situação de rua em Uberaba. A justificativa veio a público agora, com a publicação das demonstrações contábeis da entidade na edição de sexta-feira (21) do Porta-Voz, e registra que nem o aumento previsto em novo edital seria suficiente para sustentar a complexidade do atendimento.
Embora o encerramento tenha ocorrido há cerca de cinco meses, os documentos agora publicados detalham a motivação financeira apresentada pela própria organização para a desistência da parceria com o Município.
A Casa Dia mantinha acordo com a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social (Seds) para acolhimento institucional de pessoas em situação de rua. Em 2025, o serviço disponibilizava 26 vagas, sendo 20 para homens de 18 a 59 anos e seis destinadas a mulheres e público trans, com repasse municipal de R$ 26 mil por mês.
Na prática, o valor correspondia a R$ 1 mil mensais por vaga. A entidade recebeu R$ 78 mil em 2026, referentes aos meses de janeiro, fevereiro e março, antes de interromper o atendimento.
Nas notas contábeis publicadas no Porta-Voz, a Casa Dia registra a “desistência por parte da OSC” e relaciona a decisão à impossibilidade de continuidade do projeto. A organização informa ainda que um novo edital lançado pelo Município elevou em R$ 100 o valor previsto por pessoa atendida, mas avalia que o reajuste continuou insuficiente diante da complexidade da demanda.
Com isso, o valor previsto teria passado de R$ 1 mil para R$ 1,1 mil mensais por vaga, um aumento de 10%. A manifestação da entidade lança luz sobre a dificuldade de manutenção do serviço meses depois de seu encerramento e em um momento em que a rede municipal discute novamente a oferta de acolhimento, principalmente para mulheres.
Neste mês, a secretária municipal de Desenvolvimento Social, Anna Maia, afirmou à Rádio JM que Uberaba registra aumento de mulheres em situação de rua e citou o fechamento de uma instituição que anteriormente atendia esse público como um dos fatores relacionados à permanência mais prolongada delas na Casa de Passagem.
Na entrevista, entretanto, a secretária não identificou qual instituição havia encerrado as atividades. Por isso, não é possível afirmar que a referência tenha sido à Casa Dia, embora a entidade mantivesse justamente seis vagas destinadas a mulheres e pessoas trans antes de deixar o serviço.
Diante do cenário, a Seds informou recentemente que pretende estruturar um novo equipamento específico para acolhimento feminino. A proposta ainda está em fase de planejamento.
O encerramento da Casa Dia também já havia deixado sinais na rede socioassistencial. Em junho, a entidade apareceu entre as organizações sem inscrição ativa no Conselho Municipal de Assistência Social (CMAS). Na ocasião, o levantamento não permitia concluir, por si só, que a instituição havia deixado de funcionar ou encerrado a parceria com o Município.
A publicação das demonstrações contábeis no Porta-Voz esclarece agora que o acolhimento adulto havia sido encerrado em março e apresenta a justificativa financeira da própria Casa Dia para a desistência do serviço.
Os documentos não trazem manifestação da Prefeitura sobre a avaliação da entidade de que o repasse era insuficiente nem informam se as 26 vagas anteriormente oferecidas pela Casa Dia foram integralmente recompostas em outros serviços da rede.