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Psicóloga Priscila Brito diz que nos encontros de família, comuns nesta época, tem faltado respeito entre as pessoas diante de debates
Atualmente, as pessoas têm muitas expectativas em torno do propósito da vida feliz. Muitas imaginam que ter uma carreira bem remunerada, trabalhando poucas horas por dia, viajar ao redor do mundo, ter um bom carro, uma casa espaçosa e ser capaz de mostrar tudo isso nas postagens de fotos no Instagram é a verdadeira felicidade. No entanto, o adoecimento emocional da população tem revelado que a verdadeira felicidade não está baseada no que temos, porque, mesmo quando mostramos tudo isso, ainda falta o propósito de vida. As pessoas se entregam às dúvidas intermináveis sobre quais são os próprios talentos e habilidades, descobrindo que a satisfação real é aquela que revela o que temos a oferecer aos outros e como a nossa existência contribui com a sociedade. Com esse sentimento, passamos a buscar incansavelmente a resposta sobre a pergunta: que marca deixaremos no mundo?
Você lida bem com rotina? E com as outras pessoas? Tem paciência para lidar com críticas e exigências? Que balanço está fazendo de 2019 e o que espera de 2020? É sobre estes e outros questionamentos que a psicóloga Priscila Brito nos faz refletir em entrevista concedida ao Jornal da Manhã. Confira!
Jornal da Manhã – Chegamos a mais um fim de ano... Natal, ano-novo. Neste momento as pessoas se tornam mais solidárias? Qual o efeito de cada fim de ano no comportamento das pessoas?
Priscila Brito – Na verdade, o fim de ano leva a comunidade a uma reflexão muito maior do que em outros tempos. Como é fim de ciclo, as pessoas param para olhar para o próximo [ciclo]. Durante o ano, a pessoa está em um movimento muito voltado para si e, quando chega a esse fim de ciclo, ela olha mais para o geral, começa a se tornar mais solidária, clima que vai se estendendo. Infelizmente, logo depois do Natal e do ano-novo, vem o carnaval, e aí tudo isso é esquecido.
JM – Têm se tornado comuns os memes (imagens de humor distribuídas pela internet) relacionados à maneira como as pessoas se comportariam durante as festas de fim de ano. Do ponto de vista psicológico, os encontros de família são momentos de felicidade ou têm gerado desgaste?
Priscila Brito – Acredito que ao longo dos anos isso vem mudando, até porque o foco não é mais estar em família. Estar em família no fim de ano tornou-se uma obrigação social, não é mais uma coisa que todo mundo deseja. Viemos de uma cultura em que família era algo muito valorizado. E hoje, com os novos formatos, muita coisa vem sendo mudada e a bagunça começa a acontecer na mesa das festas de fim de ano, que é onde todo mundo se encontra.
JM – Temos hoje vários modelos de família. Aquele formato tradicional, com papai, mamãe e filhos, já não é mais o único modelo. Isso contribuiu para o processo de mudança de valores? E como você vê essa mudança de não haver mais o desejo de estar em família?
Priscila Brito – Não acho que os novos formatos de família tenham alternado os valores, não acho que seja isso. Acredito que trata-se muito mais de posicionamentos que hoje são mais autorizados. Antes estávamos em família e todo mundo parecia bem, porque todos estavam calados, e hoje todos falam, e isso vem trazendo mais problemas. Se eu falo e isso não agrada ao outro, então, amanhã não quero estar em família e, depois, também não estarei, e está tudo certo.
JM – Então, se por um lado as pessoas têm mais liberdade para falar, o que é positivo, de outro lado está faltando uma dose de respeito?
Priscila Brito – Não, uma dose maior, não, tem faltado o respeito. As pessoas vêm confundindo isso. Podemos falar o que pensamos desde sempre, o problema é que acreditamos que todo mundo é obrigado a ouvir o que temos para falar, e não é assim. Além disso, também não queremos ouvir o que o outro tem a dizer, e aí é que falta o respeito.
JM – O que fazer para não deixar de falar o que pensa, mas também não faltar com o respeito?
Priscila Brito – Acredito que o mais importante é não pensar que a sua verdade é absoluta. Se você entender que mais pessoas pensam além do que você está pensando e aceitar, o que é diferente de concordar com o que as outras pessoas estão expondo, isso já evita mil problemas.
JM – O maior combustível para a frustração é a expectativa. Nas festas de fim de ano há quem espera muito das pessoas ou do próprio momento ou evento e acaba se frustrando. E há uma cobrança da família, como “fulano não gosta de passar o Natal ou o ano-novo com a gente”, “porque fulano não valoriza mais a família”... Como lidar ou que habilidades ter para contornar essas situações?
Priscila Brito – Creio que as pessoas vêm confundindo muito amor com exclusividade, com posse. As pessoas costumam pensar: se eu te amo, você tem que estar comigo neste momento. Se eu não sou exclusiva neste momento para você, você não me ama. Se você não está presente comigo neste momento, é porque não sou importante para você. E acaba-se desconsiderando o ano inteiro em que o outro esteve ao seu lado, pensando apenas naquele momento específico em que a pessoa não pôde ou quis estar em outro lugar. Quando olhamos para o outro e vemos que ele não pensa como nós, ficamos frustrados.
JM – Então, como lidar com encontros de família em que estão pessoas com as quais não concordamos? Como lidar com essas diferenças?
Priscila Brito – Não existe uma fórmula mágica, mas acredito que o básico e mais importante é ser honesto com você mesmo. Se não está pronto para isso, não vá ao encontro, não tem problema; não tem que carregar culpa por isso. Se você for capaz de enfrentar as consequências, sorria para essa pessoa com a qual não concorda. Creio que tudo se baseia na aceitação e no respeito ao outro.
JM – Você tem sentido que as pessoas estão mais individualistas e mais resistentes às frustrações, em especial as mais jovens?
Priscila Brito – Acredito que estão mais individualistas, mas, mais resistentes não. As novas gerações não estão aprendendo o que é “não”, não sabem o significado do “não”. Felizmente ou infelizmente, conforme a realidade de cada família, os pais vêm suprindo isso de outras formas. Então, eu não estou em casa, mas tem a babá. Eu não estou aqui, mas no fim do ano você tem a viagem. Então, o jovem vai recebendo o “sim” de outras formas para não receber o “não”. E quando chega um momento maior, em que não tem mãe, não tem pai, nem tio, nem ninguém que barre essa frustração, muitos jovens acabam partindo para o suicídio, porque não dão conta de lidar com as emoções.
JM – No fim de ano há um sentimento crescente de tristeza em algumas pessoas, talvez pelo balanço do ano. É real esse aumento da depressão no período de fim de ano?
Priscila Brito – É real a tristeza aumentada. É preciso diferenciar. Há pessoas, sim, que desenvolvem uma crise depressiva nesse período do ano, mas nem todo mundo que se entristece no fim do ano está apresentando uma crise depressiva. Para ser depressão é preciso ocorrer por mais de duas semanas e há outros sintomas envolvidos. Estar triste não é suficiente para estar depressivo. Por outro lado, o entristecimento aumenta neste período, tanto que deram o nome de “Síndrome do Final de Ano”.
JM – É necessário tratamento para essa “Síndrome do Final do Ano” ou ela passa com o fim do período?
Priscila Brito – A síndrome em si ocorre devido a outros fatores. É preciso cuidar da síndrome? Na verdade, é preciso cuidar da pessoa além do limite da síndrome, porque há um histórico que leva essa pessoa a apresentar os sintomas sempre no fim do ano.
JM – As pessoas têm se queixado muito em virtude do ritmo de vida... Andam cada vez mais agitadas e aceleradas. Isso leva a crer que estresse, depressão e ansiedade são doenças do presente e não apenas do futuro. O que está ocorrendo?
Priscila Brito – O capitalismo tem contribuído muito para isso. Na época dos meus bisavós, eles se contentavam com uma vaquinha, um cavalinho, uma casa e uma cama para dormir. No fim do ano, todos se reuniam, o básico era suficiente e todo mundo estava feliz. Hoje, no fim do ano você precisa planejar a troca do seu carro, do seu emprego, da sua casa etc. Ou seja, tudo você precisa “ter” nesse período. Algumas pessoas fazem o balanço se o ano foi bom ou não pelo que conquistaram e não pelo que viveram. Avaliam o ano pela conta bancária, pelos resultados materiais, e as pessoas aceleram, porque tudo leva a isso. Fim de ano na empresa tem fechamento, tem que apresentar resultados, tem metas e relatórios, e tudo isso influencia o nosso sistema de vida.
JM – Neste momento, muitas pessoas estão se preparando para encerrar e iniciar ciclos com a chegada de 2020. Qual a importância dos rituais de passagem?
Priscila Brito – Os rituais têm um valor social, porém, mais do que estes momentos de valor social, nós precisamos criar o hábito de encerrar e celebrar novos ciclos sempre. Se deixarmos para fazer isso apenas em datas como fim de ano, carnaval, Páscoa etc., ou seja, apenas para épocas sociais específicas, nós vamos adoecer, porque nossos ciclos não se encerram da mesma forma.
JM – Mas as pessoas podem se utilizar desses encerramentos de ciclos sociais para realizar mudanças internas também? Estabelecer essas mudanças é importante na vida das pessoas?
Priscila Brito – Podem, sim, e devem acompanhar o calendário social, mas nada impede – e é muito saudável – que a pessoa crie o seu próprio calendário de ciclos, para sair dessa massificação que é fazer tudo que todo mundo está fazendo. É preciso que cada pessoa crie seus hábitos para não ser atropelada pelo que o grupo impõe.
JM – Você disse que as pessoas têm valorizado mais o “ter” do que o “ser”... Tem havido uma inversão de prioridades?
Priscila Brito – As prioridades e os valores vêm sendo invertidos de uma maneira muito automática. Muitas vezes as pessoas nem percebem isso porque aprenderam que aquilo é o certo, e vai só piorando a situação. E isso vem acontecendo em todos os setores. Às vezes a pessoa tem que comprar um livro que custa R$50. Ela vai achar caro, mesmo que ele seja muito importante para a vida dela. Por outro lado, a pessoa pode achar barato pagar R$50 para sentar e beber cerveja.
JM – Para muitas pessoas, ano-novo significa vida nova... As pessoas sentem na passagem um momento de renovação. Isso é real?
Priscila Brito – A grande maioria das pessoas tem esse sentimento, mas eu costumo brincar que precisamos começar a dizer “ano-novo, vida velha”. Não tem nada de vida nova ainda, porque a vida continua a mesma, precisamos construir, ao longo de períodos, essa vida nova que se deseja.