
Segundo dados acumulados do IPCA, a inflação no país registrou alta de 42,78% desde janeiro de 2020 (Foto/Divulgação)
O custo de vida em Uberaba segue em trajetória de alta nos últimos anos, acompanhando o movimento nacional da inflação e ampliando a pressão sobre o orçamento das famílias, especialmente em meio ao avanço do endividamento no município. O tema foi analisado pelo economista Marco Antonio Nogueira, que avalia que o descompasso entre renda e preços ajuda a explicar a sensação generalizada de perda de poder de compra.
Segundo dados acumulados do IPCA, a inflação no país registrou alta de 42,78% desde janeiro de 2020. Já no recorte mais recente, entre 2021 e 2025, o índice avançou 33,13%, indicando que, mesmo com períodos de desaceleração, o nível de preços permanece em patamar elevado.
Para o economista, o impacto desse movimento não é sentido de forma uniforme pela população, o que reforça a percepção de encarecimento contínuo da vida cotidiana. Ele destaca que fatores estruturais da economia brasileira ajudam a explicar esse cenário. “Quando a gente olha para o comportamento da renda, existe um descompasso em relação ao custo de vida. Isso está ligado a questões como produtividade, qualificação da mão de obra e a própria estrutura da economia, que ainda não é totalmente aberta e competitiva”, avalia.
O especialista também ressalta que o índice oficial de inflação não reflete integralmente a realidade de cada família, já que o impacto varia conforme o padrão de consumo. “A inflação medida pelo IPCA é uma média. Mas cada família tem a sua própria inflação, dependendo do que consome. Por isso muita gente sente que tudo está mais caro, mesmo quando os números mostram estabilidade”, afirma.
Esse comportamento é reforçado pelo fato de que grupos essenciais do orçamento continuam pressionando os preços. Alimentação, habitação, transportes e saúde seguem entre os principais vilões do custo de vida, com variações acima da média em determinados períodos, o que pesa de forma mais intensa sobre famílias de renda média e baixa.
Em cidades de porte médio como Uberaba, a estrutura de gastos também ajuda a explicar a pressão sobre o orçamento doméstico. Segundo a análise, cerca de 69% da renda das famílias é comprometida com despesas essenciais, especialmente alimentação e bebidas, habitação, transportes e cuidados pessoais.
O cenário local também é impactado pelo avanço do endividamento. Dados da Serasa Experian mostram que Uberaba registrou 153.840 pessoas inadimplentes em março de 2026, além de um volume superior a R$ 1,25 bilhão em dívidas ativas. O crescimento é contínuo e supera a média estadual, indicando maior pressão financeira sobre os consumidores.
Para Nogueira, o endividamento funciona como um fator adicional de perda de poder de compra, já que reduz a renda disponível das famílias. “Além da inflação, o endividamento compromete parte importante do orçamento. Isso faz com que a renda não acompanhe o custo de vida, mesmo quando há algum crescimento econômico”, explica.
Ele também observa que o mercado de trabalho ainda não consegue compensar integralmente o aumento dos preços, o que mantém o desafio do equilíbrio financeiro para a população. “A renda média não evolui no mesmo ritmo dos preços. Isso é o que sustenta essa sensação de que o salário não dá conta do básico”, avalia.
O economista destaca ainda que a recuperação do poder de compra depende de fatores combinados, como aumento da produtividade, melhora do nível de emprego, redução do endividamento e estabilidade econômica no médio prazo. “O caminho passa por crescimento sustentável da renda e políticas econômicas que consigam manter a inflação sob controle de forma consistente”, conclui.
No cenário atual, mesmo com indicadores oficiais apontando desaceleração em alguns períodos, a percepção das famílias segue sendo de orçamento apertado e dificuldade crescente para manter o padrão de consumo, especialmente diante do aumento simultâneo de preços e dívidas.