Paralisações, demissões e férias coletivas atingem diferentes regiões do Estado e colocam pressão sobre cadeias locais de fornecedores e serviços
A hibernação de unidades da Mosaic em Uberaba, com prorrogação do layoff de 250 trabalhadores e remanejamento de funcionários para o setor administrativo, é um dos reflexos de uma sequência de decisões de grandes indústrias e mineradoras que acenderam o alerta sobre a atividade econômica em Minas Gerais. Em diferentes regiões do Estado, empresas anunciaram encerramento de produção, suspensão de operações e férias coletivas, com consequências para trabalhadores e economias municipais.
O movimento ganhou força nesta primeira semana de novembro. No dia 3, a Gerdau anunciou o encerramento da produção de aço em Divinópolis, com 278 trabalhadores desligados. Dois dias depois, a Companhia Siderúrgica de Pará de Minas (Cisam) também interrompeu a fabricação de aço por tempo indeterminado e dispensou 70 funcionários. Na mesma data, a Cedro Mineração anunciou férias coletivas para aproximadamente 500 trabalhadores em Mariana, inicialmente por 15 dias. Em Uberaba, a Mosaic comunicou a prorrogação do layoff de 250 empregados até 30 de janeiro de 2027 e a transferência de pelo menos 70 trabalhadores para atividades administrativas a partir de 23 de novembro.
A preocupação, entretanto, não se restringe às decisões anunciadas nesta semana. Em abril, a Mosaic comunicou o encerramento do Complexo Mineroquímico de Araxá e a intenção de vender os ativos da unidade, além de paralisar atividades de mineração em Patrocínio. O Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Extração Mineral, Químicas e de Fertilizantes de Araxá e Região estimou que mais de 1.200 trabalhadores diretos e terceirizados poderiam ser atingidos. Em Tapira, a companhia também suspendeu temporariamente as atividades de mineração, em meio às dificuldades de abastecimento de enxofre.
Em Uberaba, a presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Químicas, Farmacêuticas e Similares de Uberaba e Região (Stiquifar), Maria das Graças Carriconde, manifestou preocupação com a ampliação da hibernação e os efeitos sobre os empregados que permanecem na empresa. Segundo a sindicalista, pelo menos 70 trabalhadores serão transferidos para o setor administrativo, com possibilidade de perda de adicionais noturnos e gratificações. O sindicato tenta negociar alternativas para preservar a remuneração. Já os 250 empregados em layoff tiveram a suspensão dos contratos prorrogada, com previsão de retorno em janeiro de 2027.
As manifestações dos representantes dos trabalhadores também evidenciam a dimensão social das decisões. Em Araxá, o presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Extração de Metais e Minerais de Araxá (SIMA), Vicente Magalhães de Matos, alertou que as indenizações negociadas com a Mosaic garantem algum fôlego inicial às famílias, mas a falta de novas oportunidades de emprego pode agravar a situação posteriormente. Em Divinópolis, os sindicatos conseguiram negociar benefícios adicionais para os 278 demitidos da Gerdau, incluindo pagamento de três salários mínimos e meio, manutenção do plano de saúde por seis meses e condições especiais para profissionais próximos da aposentadoria.
Os impactos podem ultrapassar os empregos diretamente envolvidos e alcançar fornecedores, transportadoras, prestadores de serviços e comércio. Em cidades com forte dependência industrial, a redução da atividade também gera preocupação com a arrecadação e a circulação de renda. Em Uberaba, a situação ganha importância adicional pela presença da indústria de fertilizantes e sua ligação com o agronegócio regional. Na avaliação dos efeitos econômicos, será necessário considerar também a duração das paralisações e a possibilidade de retomada das operações.
O cenário coloca novos desafios para o governo que assume Minas Gerais em janeiro de 2027. Cleitinho Azevedo (Republicanos) encontrará um Estado com dificuldades fiscais e uma indústria pressionada por custos, concorrência internacional, logística e problemas de abastecimento. O orçamento estadual para o próximo ano prevê déficit de aproximadamente R$ 10,5 bilhões. Entre as questões que estarão na agenda estão a atração de investimentos, a infraestrutura, a competitividade industrial e a geração de empregos, em um momento em que decisões empresariais já produzem efeitos em diferentes regiões mineiras.